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Crise climática faz com que eventos extremos sejam cada vez mais comuns

28/02/2023

O paradoxo trágico das dezenas de mortes no litoral paulista durante o último Carnaval é que elas são, ao mesmo tempo: 1) o puro suco do "mais do mesmo" e 2) prenúncios do mundo que está por vir. Longe de se contradizerem, essas coisas interagem entre si e reforçam uma à outra. E, como de costume, os mais vulneráveis pagam o pato.
O "mais do mesmo" já deveria ser óbvio para todo mundo há décadas: como a especulação imobiliária, a desigualdade e a falta de planejamento urbano empurram milhões de brasileiros para áreas de risco –as quais desabam e engolem famílias um ano sim e o outro também.
Portanto, gostaria de me concentrar no item 2 citado acima. Essa é a tarefa mais complicada, porque é quase impossível atribuir diretamente um desastre específico à atual crise do clima –uma crise que, nunca é demais lembrar, deve-se à ação humana.
A dificuldade se deve ao fato de que o sistema climático é influenciado por uma grande variedade de fatores, que operam em escalas de espaço e tempo diferentes e produzem diversos tipos de variabilidade natural. Isso significa que os chamados eventos climáticos extremos (entre os quais certamente se encaixa uma chuva de quase 700 mm de um dia para o outro, como a recente) volta e meia vão acontecer naturalmente.
A questão crucial aqui, porém, tem a ver com a frequência desses eventos. E, quanto a isso, temos todas as razões do mundo para acreditar que o aumento da temperatura global vai ser uma péssima notícia em muitos sentidos, especialmente para um país em que as chuvas de verão torrenciais já são comuns, como o nosso.
Imagine que a atmosfera é uma conta bancária. O vapor d’água que "cabe" nela, de acordo com essa analogia, é um limite de cheque especial –que pode aumentar bastante de acordo com uma variável simples: a temperatura. Uma atmosfera mais quente é capaz de "segurar" mais vapor d’água nela. E, claro, o aumento do calor, por si só, tende a provocar mais evaporação da água de oceanos e rios.
Repare, portanto, que virar uma única "chave" do sistema climático, aumentando a temperatura média do planeta, é capaz de bagunçar uma grande variedade de elementos desse sistema, como a intensidade da formação de nuvens de chuva –que não passam de vapor d’água concentrado–, com impactos tanto sobre tempestades nos trópicos brasileiros quanto em nevascas nos países de clima temperado. (Sim, um mundo mais quente pode, também paradoxalmente, gerar mais neve sob certas condições, já que o inverno continua acontecendo todos os anos.)
E o simples fato de que as megatempestades tendem a ser mais comuns nesse contexto pode acabar concentrando as precipitações –os momentos em que alguma água cai dos céus– em episódios mais espaçados e violentos. Ou seja, chuva demais em certas épocas até aumentaria a probabilidade de secas severas em outros momentos do ano.
(Provavelmente não é por acaso que São Paulo deixou de ser a "terra da garoa" de meados do século passado para se transformar na pátria das enchentes de hoje em dia. O aumento brutal da quantidade de áreas asfaltadas e rios canalizados decerto contribuiu para isso, mas rara é a chuva paulistana de hoje que não passa da fase de garoa.)
Além de enfrentar o desafio planetário de impedir aumentos ainda mais sérios da temperatura, dá para pensar em nível local também: aprender a se preparar para o pior. É melhor ter na cabeça o tempo todo que as chuvas e secas que aconteciam "uma vez por século" vão dar as caras a cada cinco ou dez anos. Não há outro caminho.

Fonte: Folha de S. Paulo

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