
02/07/2026
A floresta amazônica está alterando o seu funcionamento diante do aumento do calor e da escassez de água no solo. Essa é a principal conclusão de um estudo, publicado neste ano, que avaliou o sinal de transformação funcional do bioma.
Pesquisadores das universidades de Oxford, da Federal de Minas Gerais (UFMG) e do estado de Mato Grosso (Unemat) analisaram dados de satélite reunidos ao longo de 40 anos e combinaram com medições em campo, que indicaram um padrão consistente de mudança funcional na floresta.Segundo o estudo, a floresta apresentou mais mudanças nas regiões sul e leste —áreas que historicamente são mais castigadas pelo estresse climático, principalmente por intervenção humana e pela falta de chuvas.
"A amazônia está mudando a forma como funciona diante da mudança climática e do aumento da seca. Isso pode ser entendido como uma estratégia da floresta para sobreviver em condições mais duras", explica Milton Barbosa, pesquisador da Universidade de Oxford e um dos autores do estudo.
Ainda segundo a pesquisa, a floresta está adotando características de uma vegetação de regiões mais áridas. O segredo da constatação, diz Barbosa, está nas folhas: os dados indicam um avanço de estratégias foliares associadas a maior tolerância ao estresse hídrico.
"A amazônia está mudando e passando a funcionar de forma mais parecida com florestas sujeitas a maior escassez de água. Então, a notícia ruim é que isso pode indicar pressão crescente sobre um ambiente altamente biodiverso, fundamental para a regulação do clima e importante para as chuvas na região sudeste e outras regiões", continuou Barbosa.
A mudança funcional pode trazer outras consequências importantes, diz o pesquisador. Uma das possíveis consequências é a redução da produtividade da floresta. A amazônia pode ainda ter redução no sequestro de carbono, o que contribui para o efeito estufa, além de ficar mais propensa a incêndios.
As imagens de satélite mostram que a variabilidade da luz refletida pelas copas florestais na estação seca despencou de 28%, em 1984, para 18%, em 2022. Esta observação levou em consideração 130 sítios distribuídos pelos nove países que abrigam o bioma.
"Durante o período em que tem menos água disponível, a floresta se torna menos ativa e, com isso, passa a mudar menos a forma como reflete a luz. Então, isso é uma medida do quanto ela está mais estável ou mais dinâmica na estação seca. Se ela muda muito, é porque ela tem água para mudar, produzir novas folhas, lançar frutos, trocar folhas. Foi exatamente isso que procuramos medir", afirma Barbosa.
Sobre os dados de campo, mais de 3.000 árvores e 448 unidades amostrais na transição amazônia-cerrado, na região de Nova Xavantina (MT), foram integrados a imagens espaciais para testar a relação entre características foliares e estabilidade espectral.
Ainda de acordo com Barbosa, o estudo, por outro lado, não demonstra, por si só, uma transição estrutural para paisagens abertas, e ressalta a necessidade de trabalhos futuros integrando dados de satélite com monitoramento direto de fisiologia e fenologia da vegetação.
Fonte: Folha de S. Paulo
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