
09/03/2023
Migração, exposição à violência, casamento infantil, evasão escolar, perda de renda. Estes são alguns dos problemas sociais causados pela crise do clima —e que impactam as mulheres de forma desproporcional.
As mudanças climáticas já fizeram com que eventos como tempestades, secas, ondas de calor e furacões sejam mais frequentes e intensos. Esse cenário deve ficar ainda pior, dependendo do quanto a humanidade conseguir reduzir as suas emissões de carbono. Porém, quando esses fenômenos atingem populações que já são mais vulneráveis, as consequências são ainda mais graves.
Segundo estimativas do Instituto para Economia e Paz, por exemplo, o número de desalojados por causa de desastres climáticos pode chegar a 1,2 bilhão até 2050. Atualmente, a ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que 80% das pessoas forçadas a sair de suas casas por causa das mudanças climáticas são mulheres, o que gera uma série de consequências que variam ao redor do mundo.
Um relatório publicado no ano passado pelo UNFCCC, o braço da ONU voltado para as mudanças climáticas, aponta que, em alguns países africanos, homens que vivem em áreas rurais atingidas por desastres climáticos, como secas extremas, costumam migrar para centros urbanos em busca de emprego. As mulheres são deixadas para trás e precisam assumir, além do cuidado dos filhos, o comando da lavoura, mas, muitas vezes, não têm o direito de possuir terras garantido.
Com isso, elas não conseguem acessar financiamentos que poderiam ajudar na recuperação da produção e na subsistência. Especialmente no sul global, taxas de analfabetismo e falta de acesso à educação também são mais altas entre as mulheres, o que acrescenta mais uma camada de dificuldade para receber esses fundos.
De acordo com a organização Save the Children, mulheres e meninas representam mais de 40% da força de trabalho agrícola e são responsáveis por até 80% da produção de alimentos.
Estimativas da FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura, apontam, ainda, que se as mulheres tivessem o mesmo acesso aos recursos que os homens, poderiam aumentar a produtividade de suas fazendas em 20% a 30%, o que poderia elevar a produção agrícola total nos países em desenvolvimento em de 2,5% a 4%.
Os padrões sociais que impõem às mulheres e meninas tarefas de cuidado com o lar e com outros familiares são outro aspecto acentuado em meio às dificuldades econômicas provocadas pelas mudanças climáticas. Muitas vezes, cabe a elas a responsabilidade de garantir água e comida.
"Se elas estão em um lugar muito impactado pela seca, passam a caminhar uma distância muito maior para buscar água para a família", exemplifica Isvilaine Silva, assessora de engajamento e mobilização do Observatório do Clima, acrescentando que isso as deixa mais vulneráveis ao assédio.
O estudo da ONU indica, ainda, que muitas meninas são obrigadas a deixar de estudar para tomar conta da casa após eventos climáticos extremos.
Crises, assim como aconteceu durante a pandemia de Covid-19, também contribuem para um crescimento de diversas formas de violência de gênero.
"O estresse econômico induzido por desastres e mudanças climáticas pode levar a casos de casamentos infantis, precoces e forçados como estratégia de enfrentamento à pobreza", afirma Christiane Falcão, especialista em direitos humanos da ONU Mulheres Brasil.
Além disso, o aumento da pobreza pelo impacto na produção de alimentos ou por menos oportunidades de trabalho também entra na conta. "São tendências que as empurram para a dependência financeira, razão principal de entrada e permanência em relações violentas intrafamiliares e para sua exploração sexual", diz ela.
Um exemplo pode ser encontrado nos Estados Unidos. Um estudo de 2010 revelou que após o furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans, em 2005, a violência física contra as mulheres aumentou 98%.
Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo
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