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De agrotóxicos a atropelamentos: os riscos à existência do tamanduá-bandeira no Cerrado

09/03/2023

Não é fácil ser tamanduá-bandeira no Brasil. Ameaçada de extinção na natureza, a espécie está enfrentando uma série de riscos à sua existência, como desmatamento do Cerrado, atropelamentos em massa em estradas e rodovias e até casos de intoxicação por um dos agrotóxicos mais utilizados em plantações de commodities, como soja e milho.
Essa é a constatação de veterinário e biólogos que há anos pesquisam o animal e atuam na conservação do mamífero, espécie nativa das Américas e um dos símbolos da rica fauna do Cerrado brasileiro.
Não há dados oficiais sobre a população atual de tamanduás, mas um relatório da International Union for Nature Conservation (IUCN) apontou que ela diminuiu em 30% entre 2003 e 2013 - esse número, último disponível, é apenas uma estimativa por conta da dificuldade de calcular a quantidade de animais que existem na natureza.
Além do desmatamento do principal habitat, uma das causas apontadas como explicação dessa queda são os acidentes com veículos em rodovias de Estados como o Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Ou seja, os tamanduás estão sendo atropelados em um ritmo tão acelerado que isso está atrapalhando a reprodução da espécie.
Entre 2017 e 2020, pesquisadores do projeto Bandeiras e Rodovias, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), monitoraram 14% das rodovias asfaltadas do Mato Grosso do Sul.
No período, encontraram 761 carcaças de tamanduás. "Mas esse número é bastante subestimado", aponta Erica Naomi Saito, bióloga e especialista em ecologia de transportes do projeto.
"Ele só se refere a uma pequena parte das rodovias do Estado e a apenas tamanduás encontrados na pista ou no entorno. Muitos se arrastam e morrem em outros locais, ou são comidos por outros animais antes dos pesquisadores chegarem."
O estudo estimou que os acidentes reduzem em 50% a taxa de crescimento da população da espécie, sendo uma das principais ameaças ao animal no Mato Grosso do Sul.
Embora o foco fosse o tamanduá, milhares de carcaças de outros bichos típicos do Cerrado e do Pantanal foram encontradas nas estradas, como antas, capivaras e onças.
Nos três anos do monitoramento, foram registrados 12,4 mil animais mortos em acidentes - 40% deles eram de grande porte.
Segundo especialistas em conservação, como em várias regiões do Estado sobreviveram apenas pequenos fragmentos de vegetação preservada, os animais costumam atravessar as estradas em busca de comida e outros recursos.
No caso do tamanduá, que se movimenta lentamente, tem hábitos noturnos e enxerga mal, os acidentes se tornaram constantes.
"Esse é um problema crítico e crônico. E não só para a fauna, mas também para a segurança nas estradas. Há casos de famílias que morreram em acidentes como esses. É um problema que afeta direta ou indiretamente cada um de nós que usa as rodovias, que têm familiares, amigos ou funcionários usando essas estradas e que diariamente estão expostos ao risco", explica Saito.

A reportagem na íntegra pode ser lida no g1

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