
14/03/2023
A Terra nos acolhe, alimenta, protege e dá as condições para que possamos viver em harmonia com todos os seres que compartilham conosco esse sagrado território. Com grande generosidade, ela abriga milhares de seres animais, vegetais e minerais, que, como uma grande teia, relacionam-se e colaboram com o fluxo transformador da vida.
Mas de uma forma muito desrespeitosa, com suas duras e pesadas pegadas, os humanos conseguiram desequilibrar a morada de muitos espíritos. Repensar e refazer essa caminhada começa pela regeneração de Gaia, o planeta Terra, tecendo possibilidades de extinguir a monocultura mental que tudo reduz e separa.
Desde o início dos processos de colonização, a nossa avó do mundo, a Terra, vem sendo ferida, estuprada, contaminada pelas ações humanas que modificaram totalmente a morada de muitos seres. Hoje vivemos em meio a diversos desequilíbrios e graves consequências dessas feridas, que se concentram no útero da avozinha ancestral.
Séculos de razão e desenvolvimento científico não foram capazes de respeitar o fluxo natural da vida. Numa busca incessante por controle, os humanos se distanciaram da natureza e tornaram tudo mercadoria.
Historicamente, o genocídio exterminou muitas culturas, e o etnocídio segue latente, silenciando línguas originárias e espiritualidades ancestrais. Há ainda o ecocídio, que contamina as veias da Terra, os rios, causando destruições tão profundas, que possivelmente não viveremos para ver e sentir sua transformação e cura.
O princípio da educação deveria ser o de semear o respeito e orientar as crianças e os jovens para o caminho do bem viver, mas, infelizmente, somos moldados por um modelo educacional colonial, que valoriza teorias e incentiva a competição.
Dessa forma, faz-se necessário sonhar mais e buscar caminhos para que pulsem em muitos territórios escolas vivas, onde a essência será retomar os princípios de respeito à nossa Terra e fazer brotar em cada ser o entendimento de que cada um de nós tem a responsabilidade de seguir um comprometimento ético com a vida.
Se todos conseguissem enxergar de forma mais ampla, passariam a perceber que todas as formas de vida importam. As mães pacas, as mães cotias, as mães lontras, as mães onças, todos os seres merecem respeito, não somente as vidas humanas.
Se não existisse o racismo ambiental, possivelmente não estaríamos presenciando essas feridas no útero da Terra —uns chamam de mudanças climáticas, mas os líderes espirituais nos quatro cantos do mundo veem e escutam as dores e os gemidos que nossa avó vem sentindo.
A mineração, o agronegócio, a especulação imobiliária, a desigualdade social, a intolerância religiosa, a falta de vontade política de desenvolver projetos sustentáveis de equilíbrio e respeito são um sinal de que nossa humanidade está demasiadamente doente.
Tecer novamente essas tramas da grande teia da vida exige de nós, humanos, fazer com que o sopro das nossas palavras caminhe no mesmo compasso dos nossos pés. Pensar, falar e fazer, com cuidado e afeto.
Na floresta, habitam seres muitos criativos, e os espíritos guardiões de tudo que nela habita estão a nos observar. Estão bravos com nossa desajustada maneira de caminhar. É preciso reaprender a caminhar suavemente sobre a Terra senão todos nós morreremos em consequência dos nossos próprios dejetos, ganâncias e contradições.
No entanto, enquanto os maracás estiverem soando nas casas de rezas, os rezadores e rezadoras entoando as boas e belas palavras, e as crianças cantando e encantando o mundo, ainda haverá possibilidades de regeneração do interior profundo da nossa avozinha, a Terra.
Fonte: Folha de S. Paulo
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