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Dá tempo de frear crise climática e tecnologia já existe, diz painel do clima da ONU

21/03/2023

O mundo vive sob uma pressão climática sem precedentes, com alguns danos irreversíveis e um prazo ainda mais curto para agir. Por outro lado, a ação imediata ainda dá chances de conter os efeitos mais severos da crise e as soluções tecnológicas estão mais baratas e acessíveis.
Este é o principal recado que o painel científico do clima da ONU (IPCC, na sigla em inglês) dá aos governos nesta segunda-feira (20), no relatório-síntese do seu sexto ciclo de avaliação.
As recomendações do painel devem guiar as políticas públicas e as negociações diplomáticas até o final da década, quando os cientistas devem voltar a aprovar novos relatórios. O período é crucial para mudar a trajetória das emissões de gases-estufa, que devem ser cortadas em pelo menos 48% até 2030 para que o mundo contenha o aquecimento global em até 1,5ºC.
A boa notícia do relatório —que adota um tom encorajador no seu sumário-executivo— é que o mundo tem recursos e tecnologias suficientes para reduzir as emissões e mudar o sistema socioeconômico.
"Várias opções de mitigação são tecnicamente viáveis, estão se tornando cada vez mais rentáveis e são geralmente apoiados pelo público", diz o relatório, que cita como exemplo as fontes de energia solar e eólica, eletrificação de sistemas urbanos, infraestrutura verde urbana, eficiência energética, gestão da demanda, melhor manejo florestal e de culturas, e redução do desperdício de alimentos.
"De 2010 a 2019, houve reduções sustentadas nos custos da unidade para energia solar (85%), energia eólica (55%) e baterias de íons de lítio (85%) e grandes aumentos em sua implantação, por exemplo, e mais de dez vezes para energia solar e mais de cem vezes para veículos elétricos, variando amplamente entre as regiões", diz o estudo.
O relatório também traz um alerta sobre o custo de não se fazer a transição energética. "A manutenção de sistemas de altas emissões pode, em algumas regiões e setores, ser mais cara do que a transição para sistemas de baixa emissão."
Como o mundo já sente os efeitos adversos do clima, as políticas de adaptação climática se tornaram tão urgentes quanto as de mitigação —ou seja, preparar o terreno para diminuir o impacto dos danos de eventos extremos, como chuvas, inundações, secas e furacões, é tão urgente e importante quanto reduzir as emissões que causam as mudanças climáticas.
"Já que existem limites para adaptação, você precisa reduzir as emissões muito fortemente, também para que as estratégias de adaptação funcionem", explica Mercedes Bustamante, presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e uma das revisoras do relatório-síntese do AR6 (Sexto Relatório de Avaliação).
A recomendação do painel do clima é que o financiamento para as duas linhas de ação seja tratado com equivalência, aproveitando também as sinergias entre essas políticas e outras prioridades do desenvolvimento sustentável.
"É possível alcançar a erradicação da pobreza extrema e da pobreza energética e proporcionar padrões de vida decentes sem aumentos significativos nas emissões globais", afirma o texto.
O dinheiro, componente fundamental para a transição energética, também foi estudado pelo painel. A principal conclusão é que o investimento médio anual precisa aumentar de três a seis vezes em relação aos montantes atuais.
Além de diminuir as barreiras financeiras para as soluções climáticas, o painel recomenda que os governos alinhem as finanças públicas, a fim de reduzir os riscos e as barreiras regulatórias, de custo e de mercado, melhorando o perfil de risco-retorno dos investimentos.

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