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Rio Salitre, na Bahia, seca e ameaça sobrevivência de comunidades rurais

21/03/2023

No povoado da Lagoa Branca, na cidade de Campo Formoso (407 km de Salvador), o único restaurante oferece apenas tilápias de cativeiro, vindas de Sobradinho (BA). Os peixes endêmicos da região, como curimatá, mandi, dourado e piau-verdadeiro, não existem mais. O rio Salitre, vizinho da localidade, secou.
A desertificação de Campo Formoso, município com população estimada em 71 mil habitantes, abrange uma área de 80 km2 onde vivem centenas de famílias quilombolas, pequenos agricultores e comunidades tradicionais de fundo de pasto.
Além do assoreamento de trechos do rio Salitre, a degradação ambiental é marcada por solos improdutivos que obrigaram moradores a migrar. E o afluente do São Francisco não é o único exemplo do fenômeno.
Estudos indicam que são ao menos seis as comunidades rurais do chamado sertão do São Francisco cuja segurança hídrica e alimentar está ameaçada pela desertificação severa.
"Algumas famílias foram para Goiás, São Paulo e Sul. O problema é muito sério e não vemos iniciativa por parte do governo", reclama Denilson da Silva, morador da Lagoa do Porco, comunidade sisaleira do município. Casas e roças abandonadas podem ser vistas às margens das estradas vicinais que cortam a zona rural de Campo Formoso.
Entre os que ficaram, a sensação é de nostalgia. "Eu já tirei muito feijão de arranca aqui. Os mais antigos pegavam jacaré... Mas, a partir da barragem de Ourolândia (BA), as águas do Salitre secaram", lembra o agricultor aposentado Otávio da Silva, 87, na comunidade quilombola da Lagoa Branca.
A construção de 35 barragens na bacia hidrográfica do Médio Salitre é apontada como uma das causas da seca extrema e das erosões. Desmatamento da caatinga, sobrepastoreio e agricultura irrigada incompatível com os limites naturais do bioma também estão na raiz do problema, afirmam pesquisadores.
"Em Campo Formoso, a desertificação cárstica é um fenômeno jovem, mas perigoso", explica Jémison Santos, professor da Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana).
O termo vem de "carste", um dano considerado irreversível que ocorre quando ecossistemas tornam-se espécies de paisagens rochosas e desoladas. Um dos exemplos mais conhecidos no mundo são os desertos de Guangxi, na China.
"Funciona como uma espiral descendente. Um problema puxa outro e perde-se o controle do processo com a biota cada vez mais vulnerável", completa Santos, que estuda o carste na Bahia. No estado, há 289 áreas suscetíveis à desertificação.
Além delas, há situações preocupantes espalhadas por oito estados do Nordeste e no norte mineiro. Essas áreas, destaca Santos, podem virar novos carstes.
De acordo com dados do Sima Caatinga (Sistema de Monitoramento e Alerta para a Cobertura Vegetal da Caatinga), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), 13% da região Nordeste já estão transformados em deserto.

Termine de ler esta reportagem na Folha de S. Paulo

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