
21/03/2023
Nas escolas mineiras atingidas pelo rompimento da barragem na região de Mariana, não há debate crítico sobre os impactos da mineração nas comunidades. A conclusão, baseada em pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal de Ouro Preto, tornou-se a base de uma formação voltada a professores iniciada em maio de 2022.
O trabalho dos pesquisadores que integram o Gema (Grupo de Estudos Educação, Mineração e Meio Ambiente) é parte principal de um programa de reparação lançado em 2021 com o objetivo de reverter o "silêncio pedagógico", termo cunhado pela docente da UFMG Maria Isabel Antunes-Rocha, doutora em educação.
As pesquisas identificaram uma intenção de evitar a problematização da atividade minerária, em especial em relação aos riscos sociais e ambientais. Ao ouvir relatos dos professores afetados, o grupo de estudos observou desconhecimento sobre os perigos da barragem.
Maria Isabel afirma que o conhecimento auxiliaria em ações emergenciais e na busca por direitos.
Pensando nisso, UFMG e UFOP criaram o Programa de Extensão Escola do Rio Doce, que tem diversas frentes. O objetivo é capacitar cerca de 6.200 professores que trabalham nas escolas públicas dos 36 municípios mineiros afetados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana.
O projeto recebeu R$ 40 milhões da Fundação Renova, entidade mantida pelas mineradoras Samarco, BHP Billiton e Vale.
O plano, que será conduzido pelas duas universidades federais, inclui vagas para curso de pós-graduação, a produção de material didático e a formação de duas turmas no curso de aperfeiçoamento Mineração, Rompimento de Barragem e Revitalização: Desafios para a Educação.
A primeira turma começou no primeiro semestre de 2022 com 3.000 educadores, que participaram de quatro meses de capacitação com encontros remotos semanais. Foram realizadas leituras, rodas de conversa e discussões.
No final do curso, os participantes elaboraram um plano pedagógico experimental entregue aos tutores em dezembro de 2022, com propostas de ações para sala de aula. Cada escola terá dois planos selecionados pelos coordenadores do curso. Os planos darão origem a material didático que será compartilhado com as escolas da região da Bacia do Rio Doce.
Para a professora Ângela Souza Luz, tutora de um grupo de educadoras no município de Barra Longa, esse curso deveria ter sido feito antes. "Assim, na época do rompimento, teríamos consciência sobre o que aconteceu", afirma.
A escola onde Ângela leciona há 30 anos foi atingida pela lama quando rompeu a barragem de Fundão. Apesar da proximidade geográfica com a mineração, o assunto era distante.
A professora conta que, no dia do desastre, quando os rejeitos já haviam atingido municípios próximos, as aulas noturnas foram realizadas como em qualquer dia. De madrugada, a lama atingiu Barra Longa e destruiu o primeiro andar da escola.
Por quatro dias, as atividades escolares foram interrompidas. Na volta, as aulas aconteciam no segundo andar, enquanto as máquinas trabalhavam no piso abaixo. "Foi um período de transtorno, e a gente não falava nada sobre isso, nem com as pessoas de fora que estavam trabalhando, nem com os alunos. Um silenciamento total", diz.
Ao colher relatos de professores das escolas diretamente atingidas, integrantes do Gema observaram sentimentos contraditórios em relação ao rompimento. De um lado, existe a visão da mineração como responsável pela renda de várias gerações; de outro, estão os danos causados pelo desastre.
Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo
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