
23/03/2023
Os países produtores de combustíveis fósseis fizeram pressão sobre os principais aspectos do relatório climático da ONU divulgado esta semana, com a tecnologia de captura de carbono emergindo como um dos pontos críticos nas discussões de última hora entre negociadores de governos que assinam a pesquisa definitiva sobre a mudança climática.
As discussões se estenderam por horas, já que as tecnologias de captura e armazenamento de carbono e remoção de dióxido de carbono figuravam entre as questões do debate para a redação final do "resumo para formuladores de políticas" do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU reunido em Interlaken, na Suíça.
O relatório concluiu que em curto prazo é "mais provável" que o aquecimento global tenha um aumento de 1,5°C desde os tempos pré-industriais, e pediu ações urgentes para lidar com as mudanças climáticas.
Durante as negociações entre pesquisadores e formuladores de políticas sobre o texto final, os representantes da Arábia Saudita pressionaram por uma ênfase nas tecnologias que visam remover o dióxido de carbono da atmosfera.
Isso causou consternação entre outros participantes que queriam um foco maior no corte de emissões, "em vez de confiar em tecnologias não comprovadas", segundo pessoas informadas sobre as negociações.
Embora o último relatório da ONU reconheça o papel que a captura e o armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) podem desempenhar na redução das emissões, os autores alertam que essas tecnologias apresentam "preocupações de viabilidade e sustentabilidade".
"A implementação da CCS enfrenta atualmente barreiras tecnológicas, econômicas, institucionais, ecológicas, ambientais e socioculturais", diz o relatório. "Atualmente, as taxas globais de implantação de CCS estão muito abaixo daquelas de modelos que limitam o aquecimento global a 1,5°C a 2°C."
Os críticos da captura e armazenamento de carbono dizem que a tecnologia atualmente cara e subdesenvolvida é usada pelos produtores de petróleo e gás como forma de manter a situação vigente, em vez de eliminar gradualmente a produção de combustíveis fósseis e mudar seus modelos de negócios para energia renovável.
"Tenho certeza de que alguns países vão escolher [mensagens do relatório do IPCC]... e apenas observar o potencial de remoção de dióxido de carbono", disse outra pessoa familiarizada com as negociações.
A posição saudita não surpreendeu os veteranos do IPCC. Em 2021, representantes do reino buscaram substituir as referências a "emissões de carbono" por "emissões de gases de efeito estufa", disseram na época pessoas próximas às discussões.
Os Emirados Árabes Unidos, o petroestado que sediará a cúpula do clima da ONU este ano, não se manifestaram particularmente durante as discussões sobre o último relatório, disse outra pessoa informada das negociações.
No entanto, o presidente designado da COP28, sultão Ahmed Al-Jaber, que também é o chefe da empresa estatal de petróleo Adnoc, tem enfatizado constantemente a necessidade de reduzir as emissões, em vez de reduzir a produção de combustíveis fósseis.
Falando na CERAWeek este mês, ele pediu que a indústria de petróleo e gás implemente a tecnologia de captura e armazenamento de carbono e instou os formuladores de políticas a criar incentivos para "reduzir o custo da captura de carbono".
O relatório de mudanças climáticas da ONU coloca pressão extra no processo da COP28 nos Emirados Árabes Unidos este ano. O compromisso dos governos de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, em vez de reduzir sua produção, tornou-se um ponto de discórdia na linguagem acordada na cúpula do clima COP26 da ONU em Glasgow em 2021.
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