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Derretimento crescente do gelo antártico vai desacelerar os fluxos oceânicos globais, diz pesquisa

30/03/2023

O derretimento acelerado do gelo antártico está reduzindo fortemente o movimento de água nos oceanos do mundo e pode exercer impacto desastroso sobre o clima global, a cadeia alimentar marinha e até a estabilidade das plataformas de gelo, revelou uma pesquisa nova.
A "circulação invertida" dos oceanos, provocada pelo movimento da água mais densa em direção ao fundo do mar, ajuda a circular calor, carbono, oxigênio e nutrientes vitais pelo planeta.
Mas as correntes oceânicas profundas da Antártida podem diminuir em 40% até 2050, segundo estudo publicado na quarta-feira na revista Nature.
"É chocante ver isso acontecer em tão pouco tempo", disse Alan Mix, paleoclimatologista da Oregon State University e coautor das avaliações mais recentes do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC), que não participou do estudo. "O processo parece estar engatando agora. É uma notícia que precisa fazer manchetes."
Com a elevação da temperatura, água doce resultante do gelo antártico derretido entra no oceano, reduzindo a salinidade e densidade da água superficial e reduzindo o fluxo descendente em direção ao fundo do mar.
Pesquisas passadas analisaram o que pode acontecer com a circulação invertida no Atlântico norte —o mecanismo por trás do cenário de fim de mundo que veria a Europa sofrer um esfriamento ártico, na medida em que o transporte do calor se enfraquece. Mas a circulação da água antártica no fundo do mar não havia sido igualmente estudada.
Cientistas usaram 35 milhões de horas de computação ao longo de dois anos para analisar uma série de modelos e simulações que chegam até a metade deste século, concluindo que a circulação da água profunda na Antártida vai se enfraquecer com o dobro da rapidez do declínio no Atlântico norte.
"São volumes imensos de água. E são partes do oceano que estão estáveis há muito tempo", disse em briefing noticioso o oceanógrafo Matthew England, da Universidade de Nova Gales do Sul e coautor do estudo.
O efeito sobre a circulação oceânica global da água resultante do derretimento de gelo ainda não foi incluído nos modelos complexos usados pelo IPCC para descrever cenários de mudança climática futuros, mas será considerável, disse England.
A circulação oceânica invertida permite que nutrientes subam do fundo do mar. O Oceano Austral sustenta cerca de três quartos da produção global de fitoplâncton, a base da cadeia alimentar, disse um segundo coautor do estudo, Steve Rintoul.
"Se reduzimos o processo de afundamento perto da Antártida, desaceleramos a circulação inteira e desse modo também reduzimos a quantidade de nutrientes devolvidos das profundezas do mar para a superfície", disse Rintoul, membro da Organização australiana de Pesquisas Científicas e Industriais da Comunidade das Nações (CSIRO).
As conclusões do estudo também sugerem que o oceano não será capaz de absorver tanto dióxido de carbono, na medida em que suas camadas superiores ficarem mais estratificadas, o que deixará mais CO2 na atmosfera.
O estudo mostrou que as intrusões de água morna na plataforma ocidental de gelo da Antártida vão aumentar, mas não examinou como isso pode criar um efeito de feedback e gerar ainda mais derretimento.
"O estudo não abrange os cenários catastróficos", disse Mix. "Nesse sentido, é na verdade bastante conservador."

Fonte: Folha de S. Paulo

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