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Lixo se transforma em instrumentos musicais na Casa de Bambas, em Cordovil. Saiba como são feitos

18/04/2023

Uma montanha de objetos velhos ou usados acumulados no quintal da ONG A Casa de Bambas, em Cordovil, na Zona Norte do Rio, chama a atenção do visitante que chega no local. Mas engana-se quem pensa se tratar de um amontoado de lixo. Tudo ali pode ganhar uma nova vida. Nas mãos do capoeirista e músico autodidata, José Romildo dos Santos, de 50 anos, o mestre Jagunço, e seus alunos do projeto Reciclasom, pedaços de tubo de PVC, garrafas pets vazias, chapas usadas de raio-X, cabos de vassoura, tampinhas plásticas ou metálicas e outros objetos se transformam em instrumentos musicais, que já atraíram a atenção de pessoas como o humorista Hélio de La Peña e o músico Dadá Costa, percussionista do programa “The Voice Brasil”, e foram parar até na novela “Nos tempos do Imperador”, da TV Globo.
— Não gosto de dizer que o que fazemos aqui é reciclagem. Na verdade, estamos ressignificando esses objetos que iriam para o lixo. Damos um novo sentido ao transformá-los em veículos para a arte — define o mestre.
O sergipano, que está no Rio desde os 19 anos, descobriu ao acaso a habilidade de transformar em instrumentos qualquer objeto que caísse em suas mãos. Um certo dia, levou para casa um pedaço de manilha de esgoto encontrado na rua e ficou um tempo sem saber o que fazer com aquilo. Até que, vendo na TV a apresentação de um grupo de maracatu, achou que o objeto poderia ser transformado numa alfaia, tambor característico desse tipo de manifestação cultural.
Logo foi incentivado a fazer outros, e não parou mais. De lá para cá, criou mais de cem instrumentos musicais diferentes, a maioria de percussão, como tambores, tamborins, agogôs, berimbaus, maracas, tantãs, reco-recos, bateria, surdos e pandeiros. Inicialmente, fazia sozinho, mas depois passou a contar com a ajuda dos alunos do projeto social.
Com as madeiras velhas de um caixote de feira, criou o corpo de um tantã. O plástico esticado de uma garrafa pet substituiu a pele de onde se extrai o som, que surpreende pela qualidade. Uma garrafa plástica também se transformou na cabaça de um berimbau construído com tubo de PVC, arame de um pneu velho e um pedaço de cabo de vassoura.
Uma lata vazia de solvente se transformou no corpo de um cavaquinho, que fez bastante sucesso nas redes sociais. Um poste de resina descartado na Favela da Maré, perto do Piscinão de Ramos, foi cortado em várias partes e virou um tambor de crioula.
Dois tambores feitos com troncos cortados de uma amendoeira foram utilizados em uma cena da novela "Nos tempos do imperador", que contou com a participação de alunos do projeto. O humorista Hélio de La Penã, ganhou um tambor feito com tubo de PVC, com o qual se encantou num evento na Praça Mauá. Um dos xodós do mestre é um tambor uruguaio, cujo corpo é feito com pedaço de tubo plástico.
— Esse instrumento tem um valor especial e muito simbólico para mim. No lugar da pele (por onde é tirado o som) usei uma chapa do raio x de um amigo muito querido que morreu de câncer há quatro anos. Cada vez que toco o instrumento é como se estivesse conversando com ele. Esse eu não vendo de jeito nenhum — diz.
Os instrumentos feitos no projeto durante o aprendizado dos alunos são vendidos em eventos e feiras, principalmente os que tem como tema a sustentabilidade, como a Rio+30 Cidades, conferência sobre desenvolvimento urbano sustentável e inclusivo realizada no Rio em outubro do ano passado. No evento, o projeto faturou mais de R$ 4 mil com a venda de instrumentos — os preços partem de R$ 70 e variam de acordar com o material utilizado.
Segundo o professor, normalmente, 30% do que é arrecadado com as vendas é revertido em investimento no próprio projeto. Os outros 70% são rateados igualmente entre os alunos que ajudaram a construir os instrumentos. Isso faz com que o projeto seja também uma fonte de geração de renda para a garotada. Filha de músico, Jamily da Silva Barbosa, de 17 anos, está entusiasmada com o possibilidade dar nova utilidade para objetos que iriam para o lixo e ainda ganhar dinheiro com isso.
— Achei o projeto bastante inovador. Aqui a gente descobre que é possível tirar som de qualquer coisa e, o mais curioso, com afinação. Não acreditava que isso fosse possível. Nunca tinha visto — espanta-se a aluna.
O projeto Reciclasom existe desde 2003 e por ele já passaram mais de 380 alunos. A turma atual tem 38 que podem optar por somente aprender a fazer os instrumentos, só a tocá-los ou as duas coisas. As aulas são inteiramente gratuitas e atendem o público de Cordovil e outras comunidades de bairros do entorno, como Brás de Pina, Parada de Lucas, Vigário Geral e Penha Circular. Três faltas eliminam, assim como o mau desempenho escolar.
— Já aprendi a fazer muitas coisas. Uma delas foi um tambor com uma barrica de tinta e o papelão de um saco de cimento. Não sabia que podia transformar em instrumento coisas que iriam para o lixo. Hoje já penso duas vezes antes de jogar algo fora — confessa a luna Mariana Ribeiro da Silva, de 13 anos.
A feitura de instrumentos e o aprendizado musical é apenas uma das vertentes do trabalho da ONG, que atente no total mais de 800 pessoas e também ensina capoeira, balé, palhaçaria e desenho, além de outras atividades. No local também existe a Biblioteca Comunitária Christiane Torloni. A atriz não só batizou o espaço como contribui com doações para o seu acervo. Lá também, do teto ao mobiliário tudo foi feito com objetos reciclados ou ressignificados, como prefere o mestre Jagunço.
— Nossos alunos aprendem mais do que fazer os instrumentos e a tocá-los. O aprendizado também é de uma nova consciência ambiental — conclui o professor.

Fonte: O Globo

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