
25/04/2023
A Loura, uma fêmea de papagaio abandonada no interior de São Paulo mudou o destino de centenas de outros animais e contribuiu para a preservação de 3 RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Isso porque o papagaio foi abandonado em 2004 no sítio comprado pela dermatologista mineira Raquel Machado, em Porto Feliz. Recém chegada à São Paulo, a médica apaixonada pela natureza queria um refúgio próximo ao Rio Tietê – comprou a propriedade e encontrou a ave deixada para trás pelo antigo proprietário. Foi o ponto de partida para que ela começasse a entender a triste realidade de animais silvestres capturados por humanos e decidisse mudar este cenário.
Ao entrar em contato com as entidades responsáveis para saber como lidar com o papagaio, Raquel descobriu que os animais silvestres raramente conseguem voltar a viver em seu habitat natural e, pior ainda, não encontram abrigos onde possam ter uma vida digna. O tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade ilícita do mundo, só perdendo para o tráfico de drogas e de armas. No Brasil, a quantidade de animais recebidos ou pela Polícia Ambiental e IBAMA, supera a capacidade dos viveiros e recursos necessários para os cuidados.
Começava aí uma trajetória de 20 anos de luta pela causa animal, que incorporou a educação ambiental e a preservação de reservas naturais. Hoje, Porto Feliz abriga o mantenedor do Instituto Líbio, com 18 recintos amplos que abrigam cerca de 130 animais silvestre vítimas de tráfico, maus tratos e atropelamentos, dos quais 7 estão em processo de reabilitação para voltarem ao habitat original. “Trabalho para proporcionar qualidade de vida para eles e meu sonho é reinserir todos na natureza”, diz Raquel.
O mantenedor ainda conta com um Centro Veterinário, Um Centro de Nutrição, um Centro de Educação Ambiental e armadilhas fotográficas – câmeras que capturam imagens de animais que vivem na área, mas em liberdade. Raquel confessa que nunca imaginou que sua história com a Loura fosse ser tão transformadora. “Hoje, com o mantenedor, buscamos fornecer a esses animais a oportunidade de uma vida mais saudável e justa, onde são cuidados de maneira profissional com o respeito que merecem”, afirma Raquel.
O trabalho com os animais ganhou novas proporções quando Raquel e sua equipe perceberam que era preciso também conscientizar a população sobre o tráfico de animais. “Nove entre 10 animais vítimas do tráfico acaba morrendo. Além disso, o tráfico aumenta o risco de zoonoses, que representam até 75% das doenças infecciosas emergentes”, explica a médica.
Para combater o tráfico, o Instituto Líbio aposta na educação. Alunos da rede municipal de Porto Feliz e jovens do Instituto Arrastão recebem aulas sobre os biomas brasileiros, a biodiversidade do país, a importância de preservação do meio ambiente e de se manter os animais silvestres na natureza. São 8 workshops realizados pela equipe do Instituto Líbio que terminam com uma visita guiada dos jovens ao mantenedor.
Desde que as atividades de educação ambiental começaram, em 2020, mais de 800 jovens foram beneficiados, 75 educadores foram capacitados, e mais de 20 oficinas e 20 visitas foram realizadas. “Para que tenhamos adultos conscientes, precisamos sensibilizar os jovens hoje. Espécies silvestres devem permanecer soltas na natureza. Animal não é entretenimento nem pet de estimação”, afirma Raquel.
Outra grande ameaça aos animais silvestres está na destruição de seus habitats naturais pelo ser humano. E esta se tornou outra frente de atuação do instituto. Para proteger e regenerar áreas naturais, a entidade comprou e mantém 7 refúgios de vidas silvestre, em 4 biomas brasileiros (Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica).
Além do mantenedouro, são duas RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural) no Mato Grosso do Sul, as Reservas Saci e Santuário. No sul do Pará, na região amazônica do Rio Azul, uma outra RPPN foi comprada pelo Instituto e está destinada ao ecoturismo, como meio de preservar um importante corredor ecológico que integra os rios Azul e São Benedito. A intenção é promover expedições guiadas para difundir a necessidade de preservação, assim como angariar recursos e estabelecer parcerias.
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