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Pesquisa inédita revela o aumento dos eventos extremos no litoral do Brasil

27/04/2023

O litoral brasileiro, especialmente as regiões Sul e Sudeste, já vem sofrendo impactos das mudanças climáticas, com temperaturas do ar cada vez mais extremas e aumento da frequência das variações térmicas ao longo dos anos. Esse é um dos resultados de uma pesquisa inédita publicada na última terça-feira (25/04) na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
Nos litorais do Espírito Santo, do Rio Grande do Sul e de São Paulo, a frequência de ocorrências diárias de extremos de temperatura e das ondas de calor (caracterizadas por dias consecutivos de registro) aumentou ao longo dos últimos 40 anos – com um crescimento de 188%, 100% e 84%, respectivamente.
No Espírito Santo, a temperatura máxima chegou a variar de 28,6 °C, em julho de 1987, para 37,2 °C, em março de 2013, enquanto a mínima foi de 11,2 °C, em junho de 1993, a 20,7 °C, em janeiro de 2016. Até 1999, foram registradas temperaturas máximas acima de 35 ºC por oito vezes no Estado, mas na última década foram 19 vezes. Já no litoral do Rio Grande do Sul, os pesquisadores detectaram que os dias estão refrescando menos, ou seja, não atingindo temperaturas extremas tão baixas.
O estudo, realizado por cientistas do Instituto do Mar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), avaliou ondas de calor ao longo da costa do Brasil por meio da variação na intensidade e frequência de eventos extremos de temperatura. Para os pesquisadores, o conjunto de dados e métodos se mostrou uma abordagem a ser utilizada em trabalhos sobre extremos climáticos, com indicadores de intensidade, frequência e duração, podendo ser aplicado também a outras regiões do planeta.
“Os resultados mostram que as regiões Sudeste e Sul já enfrentam impactos da temperatura do ar que podem afetar não só a biodiversidade como até mesmo a economia. Identificamos que o litoral do Espírito Santo foi a região mais atingida entre as cinco estudadas porque, além do calor, foi a única onde a frequência de ondas de frio também é cada vez maior”, explica Fábio Henrique Carretero Sanches, primeiro autor da pesquisa. Sanches recebeu apoio da FAPESP por meio de bolsa de pós-doutorado.
A biodiversidade é afetada por meio de alterações fisiológicas e de mudanças de comportamento de diversas espécies devido às ondas de calor e de frio, sem contar que eventos extremos de temperatura podem ocasionar mortalidade de animais terrestres e aquáticos.
Para o professor Ronaldo Christofoletti, pesquisador do Instituto do Mar da Unifesp e um dos autores, o estudo também traz uma relação com a saúde pública, já que vários tipos de doenças respiratórias estão associados à variação da temperatura.
“O aumento de ondas de calor e de frio tem vários impactos na sociedade, que vão desde o desconforto térmico até o crescimento de incêndios florestais, problemas de saúde e da mortalidade de animais, plantas e dos seres humanos, especialmente idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica o professor, que também teve apoio da FAPESP.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontam que cerca de 559 milhões de crianças em todo o mundo estão expostas a altas frequências de ondas de calor. Segundo a agência, se o aumento médio da temperatura global atingir 1,7 °C em relação à era pré-industrial, esse total subirá para 1,6 bilhão de crianças até 2050.
Além disso, a OMS (Organização Mundial da Saúde) calculou que ao menos 15 mil pessoas morreram na Europa no ano passado devido a ondas de calor, com a Espanha e a Alemanha entre os países mais afetados. O verão europeu (de junho e agosto) de 2022 foi o mais quente registrado, sendo que as altas temperaturas levaram à pior seca do continente desde a Idade Média.
“As mudanças dos padrões de eventos extremos na costa são um sinal importante de alerta para a vulnerabilidade climática do Brasil como um todo. Este estudo confirma que a emergência climática não é futurologia e sim parte de uma realidade que temos de enfrentar, combatendo suas causas com ações concretas de mitigação e com políticas públicas eficazes de adaptação”, diz Ana Toni, secretária Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de sua assessoria.
Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em março, diz que a ação humana está inequivocamente aumentando as emissões de gases de efeito estufa para níveis recordes e que as temperaturas globais provavelmente atingirão 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais antes do previsto, no início dos anos 2030. Esse aquecimento provoca mudanças globais, incluindo o aumento do nível do mar e os extremos climáticos, resultando em danos generalizados a vidas, meios de subsistência e sistemas naturais.

Fonte: CicloVivo

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