
27/04/2023
O Brasil queimou, em média, 160 mil km² de vegetação por ano de 1985 a 2022. O número é equivalente a mais de três vezes e meia a área do estado do Rio de Janeiro (43,7 mil km²).
Os dados são do novo levantamento da plataforma MapBiomas Fogo, que serão divulgados nesta quarta-feira (26). O estudo é feito a partir de 150 mil imagens de satélite, analisadas por meio de inteligência artificial para identificar as áreas com registros de fogo.
No Brasil, as queimadas são provocadas, principalmente, pela renovação de pastagens usando fogo e na limpeza de áreas desmatadas.
Juntos, a Amazônia (43,6%) e o cerrado (42,7%) concentraram mais de 86% da área queimada nos últimos 37 anos.
No cerrado foram queimados, em média, 79 mil km² todos os anos desde 1985, área maior do que a de países inteiros, como a Escócia (77,9 mil km²). No caso da Amazônia, a média anual foi de 68 mil km² —quase uma Irlanda (84,4 mil km²).
Os dois biomas também têm índices altos de recorrência do fogo, ou seja, regiões que queimam mais de uma vez em períodos relativamente curtos de tempo.
Na Amazônia, 39% da área queimada pegaram fogo uma única vez entre 1985 e 2022, enquanto outros 48% queimaram de duas a quatro vezes.
"Nesse caso, o fogo é um elemento ruim porque o ecossistema amazônico não é adaptado a ele", explica Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Ela aponta que áreas da Amazônia atingidas recorrentemente indicam uma degradação muito alta, porque não há tempo suficiente para a floresta se recuperar. "O processo de recuperação de uma floresta por um distúrbio como o fogo demora um tempo. Então, o que vemos é que essas áreas não estão se recuperando, porque vem logo um outro distúrbio que acaba interrompendo esse processo", diz.
O cenário é semelhante no cerrado. Só 39% da área queimada no bioma pegaram fogo apenas uma vez. Outros 38% queimaram de duas a quatro vezes entre 1985 e 2022.
Além disso, 20 mil km² do cerrado incendiaram, pelo menos, uma vez a cada dois anos —ou mais de 16 vezes no período avaliado. Mas, nesse caso, o bioma evoluiu junto com o fogo.
Alencar explica que os incêndios fazem parte da dinâmica natural do cerrado quando são provocados, principalmente, por raios. Quando tempestades atingem o bioma no final da estação chuvosa, as chamas não se espalham. Já quando a ignição é humana, durante a seca, o potencial destrutivo do fogo se torna muito maior.
"O fogo no cerrado faz parte do processo evolutivo do bioma", diz a pesquisadora, explicando que a paisagem heterogênea, composta por árvores de diferentes tamanhos, arbustos e capins, e plantas que evoluíram para resistir às chamas, é um reflexo da interação com distúrbios naturais, como o fogo.
"Mas uma mudança na frequência desse distúrbio, para mais ou para menos, impacta muito o bioma", ressalta.
Se a frequência do fogo aumenta, áreas de mata mais fechada acabam virando campos. Por outro lado, se o fogo é totalmente removido, pode ser que a vegetação se adense e se aproxime mais de uma formação florestal.
No caso do pampa, da mata atlântica e da caatinga, a área queimada uma única vez de 1985 a 2022 corresponde a 80%, 72% e 65% do total atingido em cada bioma, respectivamente.
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