
02/05/2023
O botânico Felipe Guimarães chorou como criança quando entrou pela primeira vez em uma madeireira e viu a floresta "empilhada no chão", em Ji-Paraná (RO). Ele notou a fragilidade na fiscalização de caminhões que transportavam madeiras na região amazônica logo nos primeiros dias como servidor do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis), em 2003.
O trajeto no primeiro dia de trabalho para ação num trecho entre Porto Velho e Ji-Paraná, "era só pecuária, pecuária, pecuária e madeireira, madeireira, madeireira", afirma Guimarães. Ele pensou: "Cadê a floresta? Não tem."
"Foi muito chocante. Lembro perfeitamente daquele dia, chorei muito. Eu não sabia nada de Amazônia, nunca tinha pisado em solo amazônico, então, para mim, foi muito impactante no começo", afirma o servidor de 44 anos, que é de Florianópolis (SC).
O fiscal diz que essas primeiras semanas o abalaram. "Quis abandonar o emprego, porque era só desgraça, destruição, queimada e desmatamento. Questionei se era aquilo que eu queria para minha vida", afirma ele, que antes trabalhava como professor de biologia "numa ilha paradisíaca", afirma ele, em referência à capital catarinense.
Uma das primeiras atividades de Guimarães no Ibama foi preencher planilhas com os tipos de madeira que passavam pela fiscalização. As lenhas precisam estar inscritas em sistema de controle que determina quais espécies as madeireiras estão autorizadas a explorar. Ao fiscal, cabe conferir se o material que está no documento é o mesmo do caminhão.
Só que a maioria dos agentes, diz Guimarães, não sabia identificá-las e tinha que confiar na palavra do madeireiro. "Como eu era novão, me botaram para anotar na planilha e tirar fotos. Aí ficava uma discussão sobre qual madeira era aquela: ‘é ipê, cumaru ou igarapé’. Eu dizia, ´gente qual é? Preciso anotar aqui’. Ninguém sabia. Eu tinha que escrever o que o madeireiro declarasse."
Guimarães diz que muitos madeireiros colocavam o nome de alguma madeira qualquer no documento, enquanto camuflava as ilegais, nobres e de corte proibido no meio das autorizadas.
"A gente fiscalizava o documento tentando achar algum erro burocrático, porque a madeira ninguém sabia identificar. Mas não é a gente que é fiscal do Ibama? Desde quando o madeireiro é quem diz que tipo de madeira é aquela?", afirma.
Inconformado com a situação, Guimarães tomou uma atitude. Para entender como fiscalizar madeiras, o analista ambiental fez um curso em Brasília. Voltou cheio de dúvidas, "mas com muita vontade de fazer acontecer".
Para aprender na prática, foi aos galpões onde as toras ficavam estocadas e pedia duas amostras de cada espécie. Uma delas ele mandava para o laboratório e outra ficava com ele para comparar depois que saísse o resultado.
E assim, meio que na raça, ele adquiriu conhecimento que o levou a criar um curso que revolucionou a fiscalização na região amazônica e permitiu que empresas ilegais e madeireiros fossem punidos.
Nessa época ele era chefe de fiscalização em Ji-Paraná, quando recebeu a notícia que voltaria para Florianópolis, onde está até hoje. Como ele não poderia deixar aquele conhecimento ir embora com ele, chamou 18 fiscais do interior de Rondônia, de cidades como Ariquemes e Pimenta Bueno, e deu um curso didático, de uma semana, no qual entregava kits com amostras de madeiras em sacolinha de plástico.
O resultado das aulas, segundo Guimarães, foi que por um ano esses alunos ficaram se revezando em uma barreira de Vilhena, um dos últimos municípios de Rondônia, onde há um posto da Secretaria da Fazenda e do Ibama.
"Os fiscais dessa primeira turma fizeram ´um estrago´ naquela barreira, porque eles apreenderam muito material e caminhões. Nessa época eu já estava em Floripa, mas dava assistência a distância. Um belíssimo trabalho desse grupo."
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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