
04/05/2023
Mais de uma vez por dia, o agricultor Bruno Lopez, 57, renova suas esperanças e, segundos depois, se frustra ao acessar o aplicativo do serviço meteorológico da França em busca de alguma previsão de chuva.
"Agora, diz que vai chover daqui a dez dias", aponta ele, com o dedo na tela do celular. "Quero acreditar, mas a verdade é que, a cada acesso, essa previsão reaparece mais e mais para a frente", lamenta Lopez à sombra de um pessegueiro fincado na terra esturricada da fazenda onde cultiva também damascos, kiwis e maçãs nos arredores de Corbère-les-Cabanes, na região dos Pirineus Orientais, no sudoeste da França.
Uma seca histórica tem castigado essa região francesa que fica perto da fronteira com a Espanha, país que encara uma onda de estiagem e de calor inéditos para esta época do ano.
"A situação já é dramática nessa região, mas, se não tivermos chuva em maio, o problema se estenderá para outras áreas do país, de Bordeaux até Marselha", afirma o hidrólogo David Labat, professor da Universidade de Toulouse, no sul da França.
A previsão é que a chegada do verão europeu torne o quadro ainda mais severo.
Depois da escassez de chuvas em 2022 na França e da falta de neve que fez estações de esqui fecharem em plena temporada de 2023, a situação se agravou de tal maneira nos Pirineus Orientais que autoridades locais implementaram medidas de crise sem precedentes, com grande impacto na rotina dos moradores.
Há três semanas, os reservatórios que abastecem Corbère-les-Cabanes e as vilas vizinhas ficaram tão baixos que acabou a água potável da cidade. A prefeitura proibiu o consumo de água da torneira e passou a distribuir garrafas de água mineral a seus 1.250 habitantes. A conta é de uma garrafa de 1,5 litro por dia para cada morador.
"Não temos alternativa. É uma questão de saúde", afirmou à Folha o prefeito de Corbère-les-Cabanes, Gérard Soler, durante a distribuição de água aos moradores na última quinta-feira (27). "Tive de pegar recursos de outros setores para essa compra imprevista de água."
Nos dias e horários informados por meio de um aplicativo, acontece a peregrinação ao galpão da prefeitura onde ocorre a distribuição da água, de acordo com o número de moradores de cada casa.
Irritados, assustados ou resignados, os moradores vêm e vão com suas garrafas para o consumo da semana. Forçados a criar adaptações de emergência, eles agora também convivem com incertezas sobre um futuro mais próximo do que previam.
"Sempre me alarmou o debate sobre aquecimento global e mudanças climáticas, mas nunca imaginei que fosse passar por algo assim tão logo", admite Eliane Guinchard, 44, enquanto acomoda 24 garrafas de água no porta-malas do seu carro. "Dá muito medo."
No único café da cidade, Thomás da Costa, 31, teve de desligar a grande máquina tradicional de café expresso e substituí-la por pequenas cafeteiras alimentadas pela água mineral engarrafada. Nas casas, além do consumo, a água mineral agora também é usada para escovar dentes e lavar frutas e verduras.
Há pouco mais de um mês, já havia sido proibido na região o uso de água da torneira para molhar jardins, encher piscinas e lavar carros ou calçadas. Qualquer economia conta.
"Não consigo mais cuidar do meu jardim, preciso programar o uso da máquina de lavar louça e já não posso mais tomar banho quando quero. É um desastre", reclama Gérard Riborollo, 57.
"Se chegar a faltar água nas torneiras, vamos colocar 12 tanques de mil litros de água em pontos estratégicos da cidade para que a população possa se abastecer com baldes para a cozinha, o banho e a descarga", explica o prefeito, que já encomendou os 12 tanques.
Além da falta de água, os Pirineus Orientais vivem uma antecipação da temporada de queimadas, favorecida pela estiagem e pelo ressecamento da vegetação. Qualquer foco de incêndio vira, literalmente, fogo no palheiro.
Desde meados de abril, a região já teve três grandes incêndios.
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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