
09/05/2023
Manifestantes gritavam "o povo unido jamais será vencido" durante a edição de 2009 do Fórum Social Mundial, em Belém (PA), quando o telefone de Caetano Scannavino, 57, tocou. Ao atender, ele ouviu um convite improvável. "‘Aqui é da embaixada britânica. Queremos saber se o senhor aceitaria receber uma visita de alguém do altíssimo escalão do Reino Unido, mas o senhor precisa manter sigilo’, disseram".
O coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria, que trabalha com o desenvolvimento de comunidades na Amazônia, arriscou. "É o príncipe Charles? ‘Não podemos dizer.’ Mas eu sei que é ele. ‘Não podemos revelar’, e ficou nisso, no meio daquele barulho".
Aceitar o convite foi a parte fácil. Os preparativos, com estritas regras de segurança e protocolo, levaram dois meses. Agentes da segurança particular do príncipe, da Scotland Yard, da segurança do Pará, da Capitania dos Portos e da Polícia Federal se espremeram no escritório da ONG em Santarém (PA) para definir o roteiro.
Na manhã de 14 de março, Charles chegou a Santarém. Era o último dos quatro dias daquela visita ao Brasil. "O cerimonial avisava que não podia entregar presente e nem interferir. Eu disse que a regra era: a terra é da comunidade, eles que mandam", diz Caetano.
O então herdeiro da coroa britânico, que será coroado neste sábado (6), conheceu a vila de Alter do Chão, um projeto de barco-hospital, a cidade de Belterra, a Floresta Nacional do Tapajós e a comunidade de Maguary. Lá, como o mundo registrou, ele seguiu o protocolo local e dançou carimbó.
Brasil e ambiente já não eram novidade para Charles. A visita ao país foi a quarta, depois de 1978, 1991 e 2002, e a primeira com a agora rainha Camilla Parker-Bowles.
A pauta ambiental foi marcada na agenda do príncipe em 1970. Aos 21 anos, ele discursou sobre os danos causados por plásticos, gases estufa e a poluição marinha.
Para o professor Renato de Almeida Vieira e Silva, o rei Charles 3º foi um "influencer" pelo clima antes de o tema virar moda. Isso pode ser uma marca do seu reinado, diz o autor de "God Save The Queen - O imaginário da realeza britânica na mídia".
"Ele é um soberano do século 21, e a monarquia tende a não ser tão aprovada entre a população mais jovem quanto entre os mais velhos."
Falar de ambiente e mudança climática é a ferramenta para essa conexão. O especialista aponta que, para dentro do reino, Charles também investe em filantropia, fazendas orgânicas e projetos como a Nansledan, na Cornuália. O rei será o "senhorio" da cidade, que deve ter um emprego para cada família e atender a critérios de sustentabilidade.
Para fora, leva a bandeira do ambiente para se posicionar como articulador de investimentos.
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