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Cerrado, com recorde de desmatamento, pode alterar regime de água no país

16/05/2023

O cerrado perdeu 782 km² de vegetação em abril deste ano. No acumulado desde janeiro, o número vai a 2.206 km², área aproximada à de Palmas, capital do Tocantins, segundo dados divulgados na última sexta (12) pelo sistema Deter.
A alta de desmatamento na savana mais biodiversa do mundo já havia sido apontada em dados parciais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para o mês de abril.
Na Amazônia, houve uma queda em relação a abril do ano passado, com 329 km² derrubados na floresta. O número é a terceira marca mais baixa de alertas para o mês desde o início da série histórica, em 2015.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o cerrado sofre com terras públicas sem destinação, tem menos áreas conservadas do que a Amazônia e pode ser afetado por regulações da União Europeia que se concentram na floresta tropical.
Ainda, a interação do cerrado com a Amazônia tem papel fundamental no regime de chuvas e no abastecimento de corpos hídricos do país. As reservas legais no bioma variam de 20% a 35%, quase inversas às da Amazônia, com 80% protegidos por lei nas propriedades rurais.
Os próximos meses serão um desafio para o combate à derrubada, facilitada pelo tempo seco e pela falta de chuvas —não à toa, estão nesse período os picos da série histórica do Deter, iniciada em 2019 no cerrado.
O sistema mapeia e emite alertas de desmate para orientar ações do Ibama e outros órgãos de fiscalização. Os resultados representam uma indicação, mas não são o dado fechado do desmatamento, que é publicado pelo Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), também do Inpe.
O principal alerta do Deter, para especialistas, é o de urgência na região, que deve ser analisada em conjunto com o bioma vizinho. "Há uma ênfase histórica, e justificada, na Amazônia, mas há uma ligação bastante grande entre o que acontece na floresta e no cerrado", diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Um deles é regulatório. "O cerrado só tem 7% de sua área protegida legalmente. Na Amazônia, o conjunto de unidades de conservação, reservas extrativistas e terras indígenas, entre outros, chega a 50%", conta Moutinho. "Ainda, não há destinação para 2,5 milhões de hectares de terras públicas, que vêm sendo griladas numa velocidade bastante grande."
Segundo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, as autuações por desmatamento cresceram 287% de janeiro a abril deste ano na Amazônia, em comparação com o mesmo período do ano passado. O aumento no cerrado, somado a outros biomas, foi de 169%.
O governo prevê começar em julho a atualização do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado. Seu par para a Amazônia, o chamado PPCDAm, está em fase de análise das contribuições recebidas em consulta pública.
Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados, chama a atenção para outro fator que impulsiona o desmate do cerrado: a própria legislação internacional, como a aprovada pelo parlamento europeu, leva a uma migração do desmatamento na região.
Isso ocorre porque há restrições para a compra de produtos originados em áreas desmatadas ou que não sigam regras de controle da cadeia produtiva. O cerrado, no entanto, está de fora da legislação da União Europeia.
Para Salmona, o ideal seria que o desmatamento no cerrado não passasse de um teto, e que se pudesse equilibrar a produção agropecuária com a preservação da vegetação.
"Temos mais de 30 milhões de hectares de pastagens subutilizadas, às vezes com uma cabeça de gado por hectare. Para que desmatar se continuamos com manejo ruim e baixa tecnologia?", diz.

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