
25/05/2023
As carcaças de oito animais silvestres estendidas em uma lona com a frase: "E agora? Vocês nos veem?" ficaram por horas à frente da sede do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 15 de maio.
Os corpos dos animais foram levados como uma forma de protesto pela segurança das rodovias estaduais, em especial do trecho da BR-262, conhecida como "a estrada da morte" para a fauna do Pantanal e do Cerrado, que corta esses dois biomas e é administrada pelo DNIT.
"Ela passou a ser chamada assim porque a visão dos animais mortos na pista infelizmente é algo comum nessa rodovia, que é muito utilizada. Todo mundo que vai para o Pantanal, saindo de Campo Grande ou de outros locais do Estado, precisa passar por ela", diz Gustavo Figueiroa, biólogo da SOS Pantanal e um dos ativistas responsáveis pelo protesto.
A BR-262 é uma das maiores rodovias do Brasil - sua extensão tem mais de dois mil quilômetros e liga Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O trecho que vai de Campo Grande, a capital, até a cidade de Corumbá tem uma extensão de 420 quilômetros e é utilizado para o transporte de diversos tipos de cargas, como produtos agropecuários, minérios e combustíveis.
Essa parte da BR-262 é considerada por pesquisadores e ativistas de proteção animal como prioritária para receber medidas de mitigação para evitar mortes de animais e pessoas.
"Não temos dados que provem que é a rodovia mais mortal do Brasil, já que os levantamentos que ficam públicos são geralmente coletados por instituições e ONGs. Mas sabemos que muitas vidas - animais e humanas - são perdidas ali", diz Figueiroa.
No Mato Grosso do Sul, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, entre 2018 e 2023, ocorreram 372 colisões com animais envolvendo vítimas humanas fatais ou feridas.
Em 3 anos de monitoramento, feito entre 2017 e 2020, pesquisadores do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) registraram 6.650 animais mortos, uma média de 180 por mês, na BR-262 entre Campo Grande e a ponte do Rio Paraguai - uma extensão de 339 km na mesma direção da cidade de Corumbá, mas parando a cerca de uma hora de carro antes.
Destes, 316 eram de espécies ameaçadas de extinção (tamanduá-bandeira, anta, cervo-do-Pantanal, queixada, lobo-guará, cachorro-vinagre, gato-palheiro, gato-mourisco).
Os pesquisadores apontam, no entanto, que o número deve ser muito maior do que esse.
"Muitos dos animais que morrem em colisões somem, já que os próprios veículos podem jogar as carcaças de volta para a mata com o impacto da batida, alguns são levados pela chuva, comidos por outros bichos ou têm seus corpos atropelados várias vezes, o que nos impede de identificar a espécie", explica Arnaud Desbiez, fundador do Icas, zoólogo e Doutor em Manejo da Biodiversidade pelo Instituto de Conservação e Ecologia de Durrell, da Universidade de Kent, no Reino Unido.
Dados mais recentes, levantados pelo Instituto Homem Pantaneiro entre 2016 e 2023, apontam que 19 onças-pintadas morreram vítimas de atropelamento na BR-262 no trecho de cerca de 200 km entre Miranda e Corumbá.
Somente neste ano, de acordo com a Polícia Militar Ambiental, foram três animais da espécie mortos no mesmo trecho.
De modo geral, os atropelamentos não são intencionais. "A partir do momento que o animal está na pista, por uma questão de segurança, não há como evitar a colisão. Frear ou desviar do animal seria muito mais perigoso do que colidir, em especial para veículos pesados", aponta o estudo do ICAS.
O documento mostra que mais de 80% dos acidentes com animais na rodovia ocorrem no período noturno e que 40% dos animais registrados tinham tamanho suficiente para causar danos materiais aos veículos.
Termine de ler esta matéria clicando no g1
Maior coruja do Brasil é registrada em área de preservação de Valença
02/07/2026
Baleias chegam mais cedo ao litoral e isso pode não ser uma boa notícia
02/07/2026
Recife paga PIX por entulho coletado nas ruas
02/07/2026
Startup de bioingredientes vai conectar Amazônia e mercado global
02/07/2026
Amazônia mostra sinal de mudança funcional para lidar com a seca, aponta estudo
02/07/2026
Ministério da Saúde lança painel de alerta para calor extremo em municípios
02/07/2026
