
30/05/2023
Especialistas da área de clima e energia estão somando esforços para mobilizar os órgãos públicos a rever o planejamento da geração elétrica no Brasil considerando as projeções de estresses climáticos. Os cenários apontam secas mais prolongadas, com muito sol e ventos, no Norte e no Nordeste, e chuva farta no Sul. Seria como viver o fenômeno El Niño por momentos mais prolongados.
As projeções indicam que o aumento da temp eratura no Brasil será superior à média global. O aumento tende a ser de pelo menos 4°C em média, o que vai comprometer um pilar da geração energética no país, as hidrelétricas.
Os cenários constam no relatório "Vulnerabilidade do setor elétrico brasileiro frente à crise climática global e propostas de adaptação". O documento foi lançado na sexta-feira (26) pelo ClimaInfo, em nome da Coalizão Energia Limpa.
Cerca de metade do abastecimento do Brasil é feito por hidrelétricas, que também garantem potência e estabilidade ao sistema, funcionando como suporte para evitar quedas de energia. Essas usinas já sofrem com variações da temperatura. A seca de 2014 a 2015 fragilizou boa parte dos rios. Em 2021, bacias foram castigadas pela pior crise hídrica dos últimos 90 anos.
"Os registros mostram que evento climáticos extremos estão aumentando, tanto na frequência quanto na magnitude", diz um dos pesquisadores do relatório, Lincoln Muniz Alves, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e que também atuou como autor líder do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima).
Os especialistas, no entanto, afirmam que há resistência do governo e demais planejadores do sistema elétrico em mudar os modelos no setor. Um exemplo é a postura em relação as térmicas.
Desde a histórica crise de abastecimento, em 2000, quando a água mingou nos reservatórios das hidrelétricas, o seguro apagão é feito por térmicas movidas a combustíveis fósseis. A sistemática encareceu a energia brasileira, mas afastou o desabastecimento.
O relatório rejeita essa saída tradicional, inclusive as usinas a gás. Acompanhando a tendência global, recomenda a eliminação dessa fonte até 2050. O governo neste momento faz exatamente o contrário, concentra esforços para aumentar o número de térmicas a gás, construir gasodutos e abrir uma nova fronteira de exploração na margem equatorial.
"O Brasil perdeu a janela do gás e do petróleo e tenta recuperar isso agora, quando o mundo já entrou nas renováveis", diz José Wanderley Marangon, secretário de P&D do Inel (Instituto Nacional de Energia Limpa).
Os especialistas acreditam que investir em solar e eólica é a alternativa mais adequada quando o combate às mudanças climáticas exige restrição de emissões dos gases de efeito estufa, e esperam sensibilizar os reguladores brasileiros neste momento de mudanças.
"Entre 2014 e 2015, após uma ampla pesquisa, fizemos o alerta sobre a dinâmica do clima, que não havia sido considerada no planejamento do setor elétrico nem pelo Ministério de Minas e Energia. Eu diria que, agora, ligaram o sinal amarelo ", afirma Marangon.
Segundo o estudo, o aumento de secas e ventos, no Norte e no Nordeste, naturalmente favorece a expansão das fontes renováveis. Elas já representam quase 25% da geração do país, e os seus projetos estão concentrados nessas áreas. Mas, como nada é tão simples quanto parece, essa vantagem também impõe desafios.
"Se o parque gerador vai crescer ao Norte e Nordeste, então, será preciso ampliar ainda mais os investimentos no sistema de transmissão para transportar essa energia para o resto do país", explica Luiz Eduardo Barata, presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, que apoia o relatório.
Termine de ler esta matéria clicando na Folha de S. Paulo
Maior coruja do Brasil é registrada em área de preservação de Valença
02/07/2026
Baleias chegam mais cedo ao litoral e isso pode não ser uma boa notícia
02/07/2026
Recife paga PIX por entulho coletado nas ruas
02/07/2026
Startup de bioingredientes vai conectar Amazônia e mercado global
02/07/2026
Amazônia mostra sinal de mudança funcional para lidar com a seca, aponta estudo
02/07/2026
Ministério da Saúde lança painel de alerta para calor extremo em municípios
02/07/2026
