
01/06/2023
Primeiro diretor da Petrobras voltado para transição energética e sustentabilidade, o engenheiro Maurício Tolmasquim admite que a empresa ficou para trás no processo de transformação do setor, que dedica cada vez mais recursos a energias renováveis.
"Temos que resgatar o tempo perdido", afirma, citando também motivos pragmáticos como acesso a financiamento e atração de investidores entre os motivos do retorno a essa área, que a gestão bolsonarista da empresa abandonou.
No centro de uma polêmica sobre a abertura de nova fronteira exploratória na região Norte, na bacia da Foz do Amazonas, a Petrobras defende que o mundo seguirá precisando de petróleo em qualquer cenário de descarbonização e que sua produção emite menos do que a de concorrentes.
"Temos que fazer o máximo para nos livrarmos do petróleo, para descarbonizar. Mas mesmo fazendo o máximo, haverá uma demanda", diz Tolmasquim. "O petróleo da Petrobras tem emissão muito baixa. Se o mundo consumir nosso petróleo, estaremos ajudando na descarbonização."
A Petrobras já definiu algum investimento em energias renováveis?
Estamos olhando projetos, conversando com muitas empresas e estamos querendo começar já tentar fechar ainda este ano alguma iniciativa.
Não apenas em eólica offshore [no mar], que ainda não tem um marco regulatório estabelecido. Podemos entrar em outras áreas ligadas a renováveis que já estejam acontecendo. A gente precisa fazer.
Estamos torcendo que se resolva logo a questão do offshore, mas estamos olhando para outras oportunidades de negócio. Nesse momento, no Brasil, mas a gente não descarta coisas fora do Brasil.
A outra gestão dizia que a Petrobras deveria focar no petróleo. Por que entrar em renováveis?
A motivação é muito pragmática. Tem questão ética, de solidariedade com gerações futuras. Mas tem uma questão do negócio. Primeiro, todas as projeções mostram que a demanda de petróleo tende a cair nos próximos anos.
No cenário da Agência Internacional de Energia, tem uma queda de 40% se for atendido o Acordo de Paris. A Petrobras, como tem um petróleo competitivo, de boa qualidade, tem potencial para estar atendendo esse restante de demanda, mas vai ser um preço provavelmente menor. Então tem que se preparar para esse futuro. Mas isso é mais médio e longo prazo.
E em prazos mais curtos?
No curto prazo, a primeira questão é o financiamento. Cada vez mais, bancos e financiadores estão colocando condições para emprestar recursos. Ou não vamos ter acesso ou o custo do financiamento vai crescer muito. Isso já está acontecendo.
E tem os investidores. Parte deles são fundos de pensão americanos, canadenses, que têm cláusulas de restrição para empresas que emitem muito, que não tenham ações de mitigação. E estamos atrasados, porque as outras empresas já partiram. Temos que resgatar o tempo perdido.
A gente está muito bem na parte de descarbonização dos nossos produtos, é melhor que a média mundial. Mas no que diz respeito a esverdear produtos temos muito a fazer, trocar molécula por elétron.
Mas como a abertura de uma nova fronteira petrolífera, como a Foz do Amazonas, se insere nesse contexto de transição?
O Brasil pode ser um país 100% renovável, mas ainda assim o mundo vai precisar de petróleo, mesmo nos casos mais extremos de restrições. O petróleo da Petrobras tem emissão muito baixa. Se o mundo consumir nosso petróleo, estaremos ajudando na descarbonização. Com outro petróleo, a emissão seria maior.
Temos que fazer o máximo para nos livrarmos do petróleo, para descarbonizar. Mas mesmo fazendo o máximo, haverá uma demanda. Em todos os cenários. Agora, essa demanda vai ter que ser compensada, primeiro por petróleo que emita menos, depois por captura de carbono.
Termine de ler a entrevista acessando a Folha de S. Paulo
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