
01/06/2023
Reduzida a pouco mais que um décimo do tamanho original, atacada por caça e desmatamento e ameaçada por decisões desta semana do Congresso Nacional, a Mata Atlântica, cujo dia foi celebrado no dia 27 de maio, não tiveram muito o que comemorar. Mas um presente vem de estudos que revelam paisagens e biodiversidade extintas em outras partes do país em plena Região Metropolitana do Rio de Janeiro, na Reserva Biológica do Tinguá (Rebio Tinguá).
A sede da Rebio Tinguá fica a apenas 27 quilômetros do movimentado Centro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Suas bordas estão em áreas marcadas pela violência; caça e invasões são constantes. Porém, o Tinguá mantém populações de mamíferos maiores que as demais unidades de conservação fluminenses.
Abriga também animais desaparecidos de outros lugares do estado, como o queixada, o maior dos porcos selvagens brasileiros. A Rebio se estende por 26.260 hectares espalhados por Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis, Miguel Pereira, Queimados e Japeri.
A Rebio tem 26.260 hectares e abrange trechos de seis municípios do estado: Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis, Miguel Pereira, Queimados e Japeri
— Seria milagre se não fosse a prova do valor das unidades de conservação. A Mata Atlântica teima em resistir. Mas está sob imensa pressão — afirma Leandro Travassos, ex-gestor da Rebio Tinguá e um dos poucos pesquisadores que estuda há anos a reserva. Travassos é o principal autor do trabalho “Mamíferos atuais e extintos na maior Reserva Biológica do Rio de Janeiro: uma lista atualizada de espécies do Tinguá”.
A lista traz 85 espécies, fica atrás somente do maior e muito mais bem estudado Parque Nacional do Itatiaia (PNI), com 106. Porém, mais do que o número de espécies chama a atenção o tamanho da população de algumas delas, mais abundantes no Tinguá do que nas outras unidades de conservação.
Dados de estudos de Travassos ainda em andamento mostram que o Tinguá tem populações maiores de espécies importantes da Mata Atlântica, como a paca, o tatu e o cateto do que, por exemplo, o PNI e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso).
— O Tinguá é a única unidade de conservação do estado com registro de queixadas — destaca Travassos.
O maior dos porcos selvagens brasileiros não está só na lista de preciosidades do Tinguá. Há registros ainda de raridades. Uma é o muriqui-do-sul, o maior primata do Brasil e um dos mais ameaçados do mundo. Outra joia é o mico-leão-dourado, recentemente avistado, diz Victor Azevedo Valente, chefe do Núcleo de Gestão Integrada da Serra Fluminense, instância administrativa criada durante o governo passado e que unificou o comando da Rebio Tinguá e de outras UCs.
Também vive lá o lobo-guará, nativo do Cerrado, mas que tem encontrado refúgio na Mata Atlântica. E não está descartada a existência do veado-mateiro. Travassos diz que parece haver uma população estável de onças-pardas e de outros felinos selvagens. Mas a onça-pintada foi extinta pela caça nos anos 90.
Para Travassos, Valente e outros pesquisadores, a combinação de uma série de fatores explica o fato de o Tinguá possuir uma população razoável de animais. Primeiro, tem um dos últimos remanescentes de florestas de terras baixas, mais ricas em árvores frutíferas que alimentam os bichos. Essas matas outrora cobriam todo o litoral, mas praticamente desapareceram; cidades estão em seu lugar.
E a sobrevivência desse tipo de mata se deve ao fato de a região ter proteção oficial desde a terceira década do século XIX devido à abundância e qualidade de seus mananciais. Há decretos imperiais de 1833. Na década de 1880 a proteção aumentou.
E em 1989 foi criada a reserva biológica, unidade de conservação integral, de uso restrito, que só permite a visitação para a pesquisa, educação e captação de água, a despeito de ter sido concedida a instalação de oleodutos e gasoduto da Petrobras.
A Rebio nunca teve recursos suficientes para deter invasões de caçadores, palmiteiros e grupos religiosos de seitas neopentecostais, que abrem clareiras na mata. Mas, sem ela, a pressão seria ainda maior. Hoje, construções que invadem a reserva são sumariamente demolidas, salienta Valente.
Travassos acrescenta o crescimento urbano no entorno e as tentativas de reduzir sua área e categoria de proteção também tornam incerto o destino do Tinguá.
A reserva é uma caixa d’água gigante, com 32 captações e que abastece municípios da Baixada Fluminense com água de qualidade. Nas serras da Rebio está um divisor de águas das bacias hidrográficas das baías de Guanabara e Sepetiba. Lá nascem rios cristalinos, como São Pedro, Rio do Ouro, Tinguá, Xerém e Mantiquira.
Há numerosos lagos e cachoeiras escondidos, a maioria de acesso quase impossível, devido à combinação de declividade, rochas, mata fechada e um onipresente musgo.
Tanta água permite à vida florescer no Tinguá. Somado a isso, a Rebio tem grande variação de altitude, indo do nível do mar aos 1.612 metros do Pico do Tinguá. Essa variação produz numerosos habitats. O relevo acidentado também funcionou como barreira para a construções, pastos e plantações, acrescenta Valente.
Há brejos e pântanos que fervilham de insetos e anfíbios, base de toda uma cadeia alimentar. A umidade é extrema e somada ao relevo torna alguns pontos praticamente inacessíveis ao ser humano, mas refúgios para a fauna.
— Em certos lugares das encostas do Tinguá os pés mal tocam o chão. A umidade é absurda. Pisamos num emaranhado de raízes e folhas cobertas de musgo, quase intransponível sob um teto de copas fechadas. Não dá nem para montar uma barraca porque não há chão — frisa Odirlei Fonseca, pesquisador colaborador do Museu Nacional/UFRJ, que faz um inventário das aves do Tinguá.
É na escuridão das profundezas da Mata Atlântica que o Tinguá se faz ouvir com maior intensidade. A floresta abriga aves ameaçadas de extinção, como o macuco, cuja voz anuncia o amanhecer. Ainda por lá se escuta a algazarra do tiriba-de-orelha-branca e o assobio da saudade-de-asa-cinza, ambos muito raros. Outras espécies em extinção chamam a atenção pela altivez, como o gavião-de-penacho; ou a beleza delicada do tangará-rajado.
Também mora por lá a esperança de encontrar duas aves sem registro, o que significa que podem estar extintas, como a pombinha pararu-espelho e o passarinho tietê-de-coroa, que de tão caçados no século XX desapareceram.
Gisele Medeiros, analista ambiental do ICMBio há dez anos no Tinguá, destaca que se conhece apenas pequena parte da biodiversidade local. Há apenas oito pesquisas em curso na reserva. No Parnaso, por exemplo, elas passam de 40. Medeiros diz que o medo da violência de parte do entorno e as dificuldades com o terreno explicam parte do baixo número de estudos.
— Estamos só na ponta de toda a riqueza que essa floresta magnífica guarda — observa Medeiros.
O Tinguá mostra ainda a importância das áreas de amortecimento. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) que a PUC-Rio possui numa área contígua à Rebio, a floresta de árvores importantes, como jequitibás, braúnas, angicos e palmeiras juçaras sustenta a fauna que não reconhece os limites impostos pelo ser humano. Gabriel Sales, professor do Departamento de Biologia da PUC-Rio, enfatiza que as florestas do Tinguá estão entre as mais conservadas do Sudeste brasileiro.
Funcionária da RPPN e vizinha da Rebio, Divani Viana, perdeu a conta de quantos animais silvestres viu passar por seu quintal, de pacas e tatus, bem mais comuns, aos furtivos felinos silvestres, como o jaguarundi, que ela descreve como “cor de fumaça”, à onça parda, “que mete menos medo que cachorro”. Ela celebra o reaparecimento dos bugios, dizimados pela febre amarela em 2018, mas que agora começam a “voltar a cantar para a chuva”.
Fonseca diz que o Tinguá merece celebração e cuidado:
— É preciso deter a caça, traficantes de animais. E proteger a reserva antes que desapareça, pois a pressão só aumenta. Há tanto a descobrir por lá. Tinguá é cheio de mistérios. O maior deles o fato de ainda existir — frisa Fonseca.
Fonte: O Globo
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