
15/06/2023
Alertas de desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros sinalizam a urgência do combate ao fogo na iminência do período de estiagem —quando a vegetação derrubada costuma ser queimada. Neste ano, a situação pode se agravar com a chegada do El Niño, cujo início foi declarado por cientistas na última sexta-feira (8).
O fenômeno climático deve acentuar a temporada seca e quente na floresta amazônica, aumentando o risco de degradação por incêndios.
Especialistas veem na convergência de desmatamento em alta e ocorrência de El Niño um cenário de "tempestade perfeita" para a destruição do bioma. Por isso, pesquisadores afirmam que o país precisa acelerar ações e regulamentar sua política nacional para o manejo de fogo nas áreas rurais.
O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, afirma que "após quatro anos de desmonte das políticas ambientais no país, a nova gestão do Ibama está preparada para o combate e a prevenção dos incêndios florestais". O orçamento, de acordo com a pasta, cresceu 113% em relação ao ano anterior.
Outra medida necessária, apontam cientistas, é concentrar esforços no combate à degradação florestal, problema que costuma suceder ações de desmatamento e pode levar a cenários como o ponto de não-retorno, quando a floresta não consegue mais se regenerar.
Para especialistas ouvidos pela Folha, a grande aposta do governo federal para reduzir o desmatamento na floresta, o novo PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), não oferece indicadores e medidas de curto prazo para enfrentar o fogo.
Isso porque o tipo de fogo que gera mais danos à floresta amazônica, segundo a pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford, começa agora. É o incêndio utilizado por criminosos como uma "limpeza" do desmatamento.
"Depois de o trator de esteira entrar e derrubar a floresta, você deixa ali a floresta secando por semanas ou meses, até tocar fogo", explica.
Berenguer ressalta que a temporada desse tipo de queimada, em 2023, se dá numa floresta mais quente e com redução de chuva em alguns pontos, riscos que se somam aos efeitos do El Niño, que deve avançar nos próximos meses.
O fenômeno é marcado por um aquecimento acima da média no oceano Pacífico, perto da linha do Equador. Ele muda a circulação dos ventos alísios, que vão de leste a oeste, levando umidade e águas mais quentes da costa das Américas para Ásia e Oceania. Também é associado a recordes globais de temperatura.
No Brasil, há um aumento generalizado de temperatura, e uma acentuação do tempo quente e seco na região Norte, o que agrava os riscos de propagação do fogo na Amazônia.
"Nossa grande preocupação é o aumento de incêndios florestais em anos de El Niño, porque vemos uma redução significativa de chuva, floresta mais quente e seca. Isso facilita o espalhamento do fogo", reforça Celso Silva Junior, professor do programa de pós-graduação em biodiversidade e conservação da UFMA (Universidade Federal do Maranhão).
Silva, que integra o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), afirma que 69% da área da Amazônia estão sujeitos a seca. Para ele, 2015 e 2016, anos de El Niño, foram marcos das mudanças de intensidade do fenômeno ao longo do tempo e indicam os riscos que o país corre novamente agora.
O MMA (Ministério do Meio Ambiente), em nota à reportagem, afirma que a contratação de mais brigadistas e de duas aeronaves adicionais está em curso.
"A previsão é de um aumento aproximado de 18% de brigadistas em relação a 2022, com atuação de 2.101. Destes, 1.385 atuarão na Amazônia Legal (AM, AP, AC, RR, MT, RO, TO, MA), ou seja, um aumento de 15% do número de brigadistas previstos nos estados em comparação ao ano passado", detalha a pasta.
Leia a reportagem na íntegra acessando a Folha de S. Paulo
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