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Pesquisa encontra níveis altos de contaminação em peixes no Rio, em Niterói e na Região dos Lagos

15/06/2023

Uma pesquisa realizada pela Fiocruz em parceria com Departamento de Química do Centro Técnico Científico da PUC-Rio, identificou índices altos de contaminação por arsênio em amostras de cações — nome genérico usado no mercado para se referir a tubarões e raias — capturados em mar aberto no Rio, em Niterói e em cidades da Região dos Lagos. A concentração média do elemento químico ficou em 30 miligramas por quilo do peixe, com pico de 79 miligramas encontrados num peixe capturado perto das Ilhas Cagarras, em frente a Ipanema. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há nível seguro para ingestão da substância, que pode causar, no longo prazo, complicações de pele, problemas cardiovasculares, diabetes e câncer. Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aceita até um miligrama por quilo.
— O objetivo inicial desse estudo é propor formas de mitigar problemas relativos às espécies estudadas, muitas delas ameaçadas de extinção. Não esperávamos encontrar uma concentração tão alta de arsênio, o que obviamente bota em risco as pessoas também. Realmente o que vimos até agora preocupa, estamos consumindo concentrações alarmantes — disse a pesquisadora Tatiana Saint Pierre, do Departamento de Química do CTC/PUC-Rio.
O fato de a maioria dos tubarões estarem no topo da cadeia alimentar contribui para o aumento na concentração encontrada, uma vez que eles se alimentam de outros animais menores que convivem no mesmo ecossistema e também podem estar contaminados. Entre as espécies que foram objeto do estudo estão o tubarão-martelo, o tubarão-raposa, a raia-viola e a raia-chita.
De acordo com as pesquisadoras responsáveis pela pesquisa, a contaminação é causada por esgotos doméstico e industrial não tratados, pesticidas aplicados na agricultura, lixo sólido, equipamentos eletrônicos e combustíveis fósseis. Chamou a atenção também o fato de estarem contaminados peixes capturados em mar aberto, longe de ecossistemas mais poluídos.
— Não esperávamos encontrar concentrações altas assim em mar aberto. Sabemos, por exemplo, que a Baía de Guanabara está muito poluída, mas encontramos níveis bastante altos em amostras pescadas na região do Recreio dos Bandeirantes. Não temos como saber se esses peixes estiveram na baía e apenas foram capturados naquela região, mas de qualquer modo isso precisa ser analisado — disse Tatiana Saint Pierre.
Além do arsênio, foram encontrados traços de chumbo, mercúrio e cádmio, todos elementos que constam da lista das dez maiores preocupações da OMS em relação produtos químicos capazes de afetar a saúde pública. A pesquisa também identificou a presença de titânio, usado na composição de filtros solares e xampus, e dos chamados elementos terras raras, presentes em componentes eletrônicos.
— A maioria das substâncias detectadas é tóxica, carcinogênica e mutagênica, podendo alterar o sistema imune, afetando inclusive taxas de reprodução e crescimento de organismos expostos e prejudicando o desenvolvimento dos fetos — alerta Rachel Ann Hauser-Davis, pesquisadora em saúde pública e bióloga do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental da Fiocruz.
A descoberta de níveis altos de contaminação nos chamados cações acendeu nas pesquisadoras uma preocupação adicional, já que o peixe, por ser relativamente barato e de fácil consumo, chegou a ser oferecido como opção de proteína na merenda escolar da rede pública de ensino.
— Crianças, assim como mulheres grávidas, são mais suscetíveis à contaminação. Então, o recomendável é que elas não consumam esses peixes potencialmente contaminados de forma alguma — diz Rachel Ann Hauser-Davis.
A Secretaria municipal de Educação do Rio informou, por meio de nota, que desde o início do ano letivo de 2022 “retirou a oferta de filé de cação do cardápio da merenda em função da baixa aceitabilidade pelos alunos. O item foi substituído por outra proteína, o frango”. Na mesma nota, a secretaria garante que está “em processo de licitação para a compra de filé de linguado para compor um novo cardápio”.
De acordo com a Secretaria estadual de Educação, “nutricionistas elaboram os cardápios seguindo determinações e recomendações estabelecidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)”. A pasta não especificou se há ou não a oferta de cação na merenda.
Os primeiros resultados do estudo, previsto para durar até 2024, correspondem a amostras de peixes coletadas no fim de 2021 e analisadas este ano.
— Ainda há muitos animais de diferentes espécies em processo de análise — ressalta Rachel Hauser-Davis.
Dados disponíveis na página da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio (Fiperj), mostram que, em 2021 foram capturadas 123,5 toneladas de cações em Niterói, Rio, Arraial do Cabo e Cabo Frio, cidades abrangidas pela pesquisa.
— O que se chama de cação nada mais é do que o tubarão e a raia, que fazem parte da mesma classe de peixes cartilaginosos — explica Rodrigo Barreto, biólogo pesqueiro radicado em Santa Catarina. — Para se ter uma ideia, temos cem espécies de tubarões e 110 de raias, das quais 62 correm risco de extinção.
A pesquisa tem parceria com o Instituto Museu Aquário Marinho do Rio de Janeiro (IMAM/AquaRio), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ), Associação Mar Brasil e Grupo de Estudo de Elasmobrânquios do Paraná, além da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos.

Fonte: O Globo

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