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Extração de gás na Argentina causa problema ambiental, denunciam indígenas

27/06/2023

Em pouco mais de uma década, Emilce Beeguier, 33, viu mudar a comunidade de Fvta Xayen, onde nasceu, nas proximidades da cidade argentina de Añelo (1.014 km de Buenos Aires). O município é considerado o coração de Vaca Muerta, uma massiva formação geológica que abriga a segunda maior reserva de gás de xisto do mundo e também é a casa ancestral do povo mapuche.
"Antes era tranquilo. Não se ouvia nem um carro passando. Agora, com o movimento na estrada, não se pode atravessar um lado a outro como eu fazia quando era criança, por exemplo", conta a kona ("jovem militante", em mapuche).
O vaivém de caminhões na região se deve à exploração de combustíveis feita por "fracking", ou fraturamento hidráulico, iniciada em 2013. A técnica usa milhões de litros de água misturados a areia e a reagentes químicos para quebrar a rocha de xisto no subsolo e extrair petróleo e gás.
Vaca Muerta colocou a Argentina entre os maiores produtores do mundo de gás e petróleo não convencionais (aqueles extraídos por meio do "fracking") e sucessivos governos vêm investindo na exploração na região.
Na terça-feira (20), entrou em operação o primeiro trecho do gasoduto Néstor Kirchner, ligando Vaca Muerta até a província de Buenos Aires. O presidente Alberto Fernández aposta na obra para aliviar a crise econômica que assola o país, já que poderá economizar nas importações e reduzir a falta de dólares que impulsiona a inflação.
No final de abril, Beeguier viajou de avião pela primeira vez para evento promovido pela ONG 350.org, para contar a comunidades impactadas por projetos de energia no Maranhão o que a chegada do "fracking" significou para Vaca Muerta.
Os caminhões com insumos e rejeitos dos poços circulam por estradas na área usada como pastagem e, por isso, afetam diretamente a criação de animais, atividade tradicional dos mapuches. "Eles são atropelados. Temos que estar o tempo todo contendo os animais para que não vão aonde sempre estiveram", conta a ativista.
Ela relata que as 17 famílias da comunidade passaram a sofrer os impactos logo que o "fracking" foi aprovado. "Começaram a chegar aos territórios pessoas que não conhecíamos, para fazer as fraturas, que prejudicaram a água e, eventualmente, a contaminaram."
De acordo com relatório da consultoria Ricsa, em junho de 2021, 15 petroleiras operavam 1.145 poços de petróleo e gás em Vaca Muerta, principalmente na província de Neuquén —onde fica o território mapuche. A maior parte dos poços (67%) é da estatal YPF, mas dezenas de outros pertencem a multinacionais como ExxonMobil, Chevron, Shell e Total.
A YPF foi procurada para comentar as reclamações dos mapuches, mas não respondeu até a publicação da reportagem.
A matriz energética argentina é dominada pelo gás natural (55%) e o petróleo (33%). Segundo a secretária de Energia do país, Flavia Royón, 47% do petróleo e 41% do gás da Argentina são produzidos em Vaca Muerta.
Sobre as críticas ambientais ao novo gasoduto, Royon afirmou à Folha que "não há nenhum questionamento ao projeto".

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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