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Eixo da Terra mudou por extração de água do subsolo para regar plantações

03/07/2023

Uma olhada pela janela de um avião em voo não deixa dúvida da capacidade da humanidade de transformar radicalmente a superfície do planeta em que vive. Menos óbvio é o fato de que nossas atividades agrícolas estão deslocando o eixo de rotação da Terra. Mas é exatamente o que está acontecendo.
A constatação é do grupo liderado por Ki-Weon Seo, geofísico da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, e foi publicada na última edição do periódico Geophysical Research Letters.
A noção de que os polos geográficos da Terra, ou seja, os pontos por onde passa o eixo de rotação do planeta, são ligeiramente móveis já está consolidada há tempos. Isso porque o campo gravitacional terrestre não é perfeitamente igual em todos os pontos da superfície.
Não é difícil entender isso. Onde há mais massa, a gravidade é ligeiramente maior; onde há menos, é menor. E nosso planeta é dinâmico, com massas de água e gelo todos os anos se deslocando conforme as estações do ano, criando um balanço que, por sua vez, produz uma oscilação sazonal do eixo.
Tudo isso é muito pequeno comparado à escala do planeta, de modo que ninguém precisa se preocupar com uma instabilidade no eixo que fosse capaz de perturbar de forma radical o clima no globo (lembrando que é justamente o grau de inclinação dele com relação à órbita da Terra em torno do Sol que produz as estações do ano).
Ainda assim, os pesquisadores vêm notando um deslocamento adicional, com relação ao movimento sazonal, que desafiava explicações. Mesmo levando em conta o estabelecimento de barragens em rios (que naturalmente aumentam a quantidade de água, portanto de massa, em terra firme) e o derretimento de geleiras e das calotas polares continentais (que aumentam a quantidade de água nos oceanos), o deslocamento predito do polo geográfico não se alinhava direito com as observações.
A grande sacada de Seo e seus colegas foi lembrar os potenciais efeitos da extração de água do subsolo. Há dados recentes, obtidos sobretudo com o satélite Grace, da Nasa, das pequenas variações no campo gravitacional da Terra em razão, principalmente, do deslocamento de água. Ele operou entre 2002 e 2017 e teve um substituto lançado em 2018, o Grace Follow-On.
Essas medições mostraram com clareza o aumento da massa dos oceanos, acumulando mais água. Sempre foi difícil, contudo, especificar a contribuição da extração de água do subsolo por atividade humana. Um modelo hidrológico global divulgado em 2010 sugeria que, desde 1993 até aquele ano, cerca de 2.150 gigatoneladas de água bombeadas do subsolo teriam ido parar nos oceanos, levando a uma contribuição de 6,24 mm no nível médio do mar no período.
Esses esvaziamentos de reservatórios subterrâneos de água se deram em particular no noroeste da Índia e no oeste da América do Norte.
O problema, claro, é conhecido: com o objetivo de promover sobretudo irrigação de plantações, sistemas de bombeamento de água estão esgotando esses recursos mais depressa do que a natureza pode repô-los. (A expressão "recurso renovável" pode esconder toda sorte de pecados; a água é de fato um recurso renovável, mas um problema surge se você a consome localmente mais depressa do que o sistema terrestre consegue devolvê-la ao local de onde está sendo tirada.)
O desafio era confirmar que isso realmente estava acontecendo na escala sugerida pelo modelo. O grupo de Seo viu isso como uma oportunidade para matar dois coelhos com uma só paulada: explicar o movimento ainda não compreendido do polo geográfico e encontrar uma baliza para corroborar a perda de água extraída do subsolo para os oceanos.
Pegaram os dados do modelo de 2010 e plugaram em outro, que calculava o impacto dos vários movimentos de água no eixo de rotação. E aí, surpresa, o alinhamento entre predição e observação ficou muito melhor, quase exato.

A reportagem na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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