
03/07/2023
Bangladesh é uma terra de água. Seus rios carregados de sedimentos descem céleres do Himalaia e se derramam num labirinto filigranado de lagoas, pântanos e afluentes até desembocar na negra e tempestuosa baía de Bengala.
Hoje sua ameaça mais profunda é a água, em suas muitas encarnações terríveis: seca, dilúvio, ciclones, água salgada. Todas são agravadas em diferentes graus pela mudança climática, e todas estão forçando milhões de pessoas a fazer o que podem para ficar à tona.
Isso tem importância para o resto do mundo, porque aquilo que enfrentam hoje os 170 milhões de habitantes deste país de delta, densamente povoado, é o que muitos de nós vamos enfrentar amanhã.
Os bengaleses correm para colher o arroz assim que são avisados de chuvas fortes rio acima. Eles constroem canteiros flutuantes de jacintos de água para cultivar vegetais fora do alcance das enchentes. Nos locais onde os viveiros de camarão deixaram o solo salgado demais para cultivar plantações, eles plantam quiabos e tomates não no solo, mas em composto colocado nas caixas de plástico que antes continham camarões. Nas áreas onda a própria terra está sendo levada embora pela água, as pessoas têm que se mudar para outras aldeias e cidades. E, nos locais onde falta água potável, os bengaleses estão aprendendo a beber cada gota de chuva.
Saber Hossain Chowdhury, um parlamentar do partido governista e enviado climático do primeiro-ministro, disse que os esforços de seu país são como tentar tampar um barril furado. "É como quando você tem um barril que está vazando de sete lugares, mas você só tem duas mãos", ele disse. "O que você faz? Não é fácil."
Bangladesh vem conseguindo salvar vidas durante ciclones e inundações. Mas há uma multidão de outros desafios a serem enfrentados, e todos ao mesmo tempo: encontrar novas fontes de água potável para milhões de pessoas no litoral, ampliar o seguro das plantações, preparar as cidades para receber o fluxo inevitável de migrantes da zona rural, e até mesmo cultivar boas relações com países vizinhos para compartilhar dados meteorológicos com eles.
Tudo isso com pouca ajuda dos países ricos do mundo. Em lugares como o Bangladesh há uma frustração crescente com o fato de os países ricos não terem reposto os recursos necessários aos países em desenvolvimento para adaptar-se aos perigos que já enfrentam. Esse é um tema da cúpula de finanças climáticas promovida esta semana em Paris.
Entre os 64 distritos de Bangladesh, metade é considerada vulnerável à mudança climática.
O que fazer quando o nível dos rios sobe e a água cobre suas plantações?
Se você é Shakti Kirtanya, cultiva suas plantações sobre a água. Se o nível da água sobe, elas também sobem. Elas boiam sobre a água. "Se você vir a colheita, ela encherá seu coração de alegria", ele disse.
Kirtanya aprendeu essa técnica agrícola com seu pai, que a aprendeu com o pai dele. Ela é praticada há 200 anos em seu distrito de baixa altitude, Gopalganj, onde a terra costuma passar metade do ano inundada.
Agora, pelo fato de a mudança climática estar levando o risco de inundação para muitas outras áreas, as roças flutuantes de Gopanganj estão se espalhando. Nos últimos cinco anos o governo vem dando suporte a roças flutuantes em 24 dos 64 distritos do país.
Kirtanya usa o que ele tem. Ele corta os caules dos jacintos de água no lago próximo à sua casa, deixa a pilha de plantas cozinhar debaixo do sol e a molda para formar sementeiras compridas e largas sobre a água. Ele semeia melancia e amaranto no verão, repolho e couve-flor no inverno. A horta é uma fonte de renda e, para sua família, uma fonte de vegetais frescos cultivados sem agrotóxicos.
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