
11/07/2023
Quando alguém é excelente no que faz, pode passar a impressão de que cumpre suas atividades sem esforço. É assim com craques do esporte que parecem criar jogadas com facilidade ou com quem canta bem e faz a afinação soar absolutamente natural. Podemos ter esta ideia sobre a arquiteta que transforma totalmente um ambiente a partir de um projeto que veio à sua mente. Foi isso que fez Lélia Deluiz Wanick Salgado, ao olhar para a área da antiga fazenda de gado que pertenceu à família do marido, o fotógrafo Sebastião Salgado.
Lélia acompanhava o marido em uma visita à propriedade, onde Sebastião passou boa parte da sua infância. A arquiteta olhou para aquela paisagem devastada e nasceu ali um projeto que traria verde e vida de volta àquelas terras. O companheiro também enxergou essa nova paisagem e a história do Instituto Terra começava a ser escrita pelo casal. Desde então foram mais de 2.100 hectares de mata reflorestada, sendo 608,69 na Fazenda Bulcão, que se tornou uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
Olhando a foto da imensa área que era ocupada pelas pastagens de terra batida, quase sem verde, e a foto da floresta cheia de árvores e vida dos mais de 700 hectares do Instituto Terra, podemos ter a impressão que o reflorestamento veio de forma natural, pela ação do tempo e da natureza. Mas a verdade é que as duas imagens são separadas por 25 anos de muito trabalho.
Hoje, o Instituto Terra é referência quando o assunto é restauração ecossistêmica, desenvolvimento sustentável e educação ambiental. Muito além do reflorestamento da área da antiga fazenda, o trabalho desenvolvido pelo Instituto inclui a conservação e restauração ecológica e ambiental tanto de áreas de mata nativa como de nascentes degradadas da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, uma das principais fontes de água doce da Região Sudeste.
Junto com a fauna, mais de 240 espécies de animais, de todas as classes de fauna, voltaram a encontrar refúgio na floresta que ocupou a antiga Fazenda Bulcão. Até o momento, foram identificadas na RPPN 172 espécies de aves, sendo que seis delas estão ameaçadas de extinção, 33 espécies de mamíferos, sendo duas delas em extinção no mundo (saua ou guigó e onça parda) e outras três em extinção no Brasil (jaguatirica, gato do mato pequeno e onça parda), 15 espécies de anfíbios e 15 de espécies de répteis.
Por trás desta conquista, existe o envolvimento e dedicação de muitas pessoas. São quase 100 funcionários fixos, a maioria trabalhando lá há muitos anos, que sentem orgulho de fazer parte desta história. “Trabalhar no Instituto Terra é uma experiência única. Uma ONG de uma cidade pequena com um trabalho alcança o mundo inteiro. É muito gratificante saber que o que fazemos hoje é duradouro, envolve gerações que eu não vou conhecer. Sei que o que estou fazendo aqui não é só para mim”, conta Marcella Fialho, assessora de comunicação.
Para se ter uma ideia da dimensão do que faz o Instituto, um bom começo é visitar o viveiro de mudas que pode produzir cerca de 1 milhão de árvores nativas por ano. Para plantar uma árvore, uma equipe percorre um raio de cerca de 200 km coletando sementes de espécies da região. Essas sementes chegam ao Instituto onde são beneficiadas e vão para análise no laboratório. São então armazenadas e esperam o período certo de plantio.
O plantio acontece em 4 fases. Primeiro a germinação da semente em um banco de areia. Depois a transferência para uma sala de sombra, onde a nova muda vai ser plantada em substrato especial e ficar protegida do sol. Na etapa seguinte, a muda vai para o sol, mas ainda recebe cuidados especiais até estar totalmente adaptada às condições climáticas do local. Só então é encaminhada para a área de reflorestamento.
Depois de ser plantada em sua área definitiva, a muda é acompanhada por pelo menos 3 anos pela equipe do Instituto Terra, com manutenção periódicas que garantem que a árvore vai crescer forte e saudável.
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