
25/07/2023
Mapas climatológicos recentemente divulgados pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) trouxeram à tona uma revelação preocupante: o El Niño que começou em junho de 2023 está apresentando características bem distintas dos fenômenos ocorridos nos últimos anos.
Como é possível ver nas imagens acima, o episódio climático conhecido por seu aquecimento anormal das águas superficiais no leste do Oceano Pacífico Equatorial, próximo às costas do Peru, Equador e Colômbia (faixa amarelo-laranja dos mapas), está se manifestando de forma singular nesta atual temporada.
De forma simultânea ao desenvolvimento do El Niño, estamos enfrentando um forte aquecimento dos oceanos em outras regiões do mundo além da porção equatorial do Pacífico, principalmente em grandes trechos que vão do Atlântico Norte ao Mediterrâneo.
Como essa conjuntura climática é complexa e bem diferente do usual, cientistas alertam que os potenciais desdobramentos de tudo isso ainda são desconhecidos.
"Neste momento, estamos enfrentando um El Niño que ocorre em meio a um oceano global muito aquecido, e não sabemos como o nosso planeta mais quente afetará as condições atmosféricas do El Niño", disse a NOAA, em um comunicado.
De acordo com a MetSul, o atual episódio de El Niño é tão singular que difere até mesmo dos fenômenos extremos de 1982-1983 e 1997-1998, conhecidos como "Super El Niños". Enquanto nessas ocasiões anteriores o El Niño marcava a principal área de aquecimento anômalo dos oceanos, atualmente essa característica não prevalece mais.
Karina Bruno Lima, doutoranda em Climatologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) explica que as causas desse cenário de aquecimento anômalo do Atlântico Norte ainda estão sendo estudadas, mas até o momento acredita-se que seria uma conjunção de fatores contribuintes: mudanças na circulação atmosférica, poluição do ar e a tendência das mudanças climáticas.
"A anomalia do Atlântico Norte é absurda", diz a pesquisadora. "Este El Niño está ocorrendo no contexto de elevado aquecimento oceânico a nível global e ainda não sabemos como isso afetará os padrões de circulação, consequentemente, se torna mais difícil prever os impactos do El Niño no clima global".
O El Niño é um dos fatores que pode influenciar na previsão de recordes de temperaturas nos próximos quatro anos. De acordo com a Organização Mundial Meteorológica (OMM), há uma probabilidade de 66% de a média anual de aquecimento ultrapassar 1,5°C entre 2023 e 2027.
Esse é o aumento máximo da taxa média de temperatura global definido para este século a fim de evitar as consequências da crise climática provocada pelo homem.
O problema é que, com a maioria dos oceanos com temperaturas acima da média, é bem difícil prever o que vai acontecer exatamente com o clima global.
"[Temos um] El Niño ocorrendo com situações globais sem precedentes", alerta o climatologista Carlos Nobre.
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