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Montes submarinos com recifes são descobertos no Espírito Santo

03/08/2023

Pesquisadores de universidades brasileiras, em parceria com a Academia de Ciências da Califórnia, nos Estados Unidos, apresentaram um mapeamento inédito sobre a biodiversidade em montes submarinos da Cadeia Vitória-Trindade, localizados próximos à costa do Espírito Santo, entre a Zona Econômica Exclusiva do Brasil e águas internacionais. Em artigo científico publicado na revista científica Coral Reefs, o novo ecossistema foi batizado de “Colinas Coralinas” devido às extensas estruturas de recifes de coral e algas coralinas encontradas em alguns dos montes.
Apesar de serem ambientes bem preservados graças à profundidade e à distância em relação à costa, o novo ecossistema já sofre pressões pela mineração para a fabricação de fertilizantes e, também, pela pesca. Os pesquisadores encontraram âncoras, vestígios de armadilhas e outros indícios de pesca nos montes submarinos recém-mapeados.
“Conseguimos reunir informações sobre a ecologia e a estrutura de habitat deste ambiente tão único e remoto. Encontramos uma grande quantidade de espécies de peixes, que pode ser considerada a maior do Brasil e uma das maiores do Atlântico, além de fauna muito bem preservada, com algas coralinas totalmente diferentes dos ecossistemas existentes tanto no Brasil como em outros lugares do mundo. Consideramos o estudo muito oportuno, uma vez que a região está sob ameaça iminente, com a pesca desregulada e, principalmente, a mineração”, explica Hudson Pinheiro, um dos coordenadores do estudo, pesquisador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP), da Academia de Ciências da Califórnia e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
A pesquisa de campo contou com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e foi realizada a partir de uma expedição marinha de 17 dias que visitou o Banco Davis, um dos principais montes submarinos da Cadeia Vitória-Trindade. Os pesquisadores participaram de mergulhos técnicos em grandes profundidades, usando equipamentos especiais e técnicas ainda pouco disseminadas no Brasil para explorar as características do ambiente e descrever a biodiversidade do local.
Os montes submarinos da Cadeia Vitória-Trindade são considerados um grande laboratório submerso para o estudo da ecologia e da evolução da vida marinha. Isoladas e profundas, essas montanhas submarinas e ilhas formam uma espécie de trampolim entre as águas rasas da costa e a Ilha de Trindade, distante 1.140 quilômetros do continente, e representam um verdadeiro oásis no oceano, com muitas espécies encontradas apenas no local.
“São ambientes de grande importância para a ciência e a preservação da biodiversidade marinha que precisam ser protegidos. É importante lembrar que os recifes de coral são considerados um dos ambientes de maior biodiversidade e produtividade da Terra. Por isso, a exploração desordenada pode trazer consequências irreversíveis, provocando perdas de espécies que ainda sequer são conhecidas pela ciência”, alerta Pinheiro. O pesquisador explica que a atividade de mineração na região não é de uso sustentável. “Não dá pra imaginar que esse ambiente, constituído há pelo menos 20 mil anos, poderá se recuperar. O nível de impacto sobre as espécies será muito severo”, frisa.
Pinheiro destaca que as comunidades de peixes dos montes submarinos são particularmente vulneráveis à sobrepesca devido a uma combinação de fatores, incluindo seu isolamento, que limita o reabastecimento das larvas; a restrição da área, que limita o tamanho da população; e a história de crescimento lento de muitas espécies.
A diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes, reforça a relevância da pesquisa. “Além de gerar dados científicos sobre um ambiente ainda pouco conhecido e notadamente valioso para a compreensão da evolução das espécies marinhas, o estudo pode contribuir para embasar políticas públicas voltadas à conservação do oceano. As colinas coralinas precisam de medidas de precaução, mapeamento ecológico abrangente e novos estudos de conservação antes que sua biodiversidade seja potencialmente perdida por práticas predatórias”, afirma Malu.

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