08/08/2023
As ondas de calor extremo que tornaram o mês passado no mais quente já registrado no planeta não se restringem à superfície da Terra. Nos mares, as temperaturas escalam a níveis nunca antes vistos na História moderna. O observatório europeu Copernicus divulgou nesta sexta-feira que, no final de julho, a temperatura média dos oceanos chegou a 20,96ºC, superando o recorde anterior de março de 2016. Os dados não consideraram as regiões polares.
O observatório explica que "o oceano funciona como um regulador climático vital" para a mitigar o impacto da atividade humana no meio ambiente, absorvendo cerca de 90% do excesso de calor produzido na era industrial.
"Esse calor absorvido é posteriormente distribuído globalmente pelas correntes oceânicas, liberando parte dele na atmosfera e permitindo que o restante penetre nas camadas mais profundas do oceano", afirma o Copernicus em comunicado, sublinhando que tal processo "é fundamental para manter o equilíbrio do sistema climático do nosso planeta".
No entanto, o desequilíbrio nesse processo, impulsionado pela enorme emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, tem graves impactos sobre espécies marinhas e seus habitats e aumenta a intensidade e frequência de fenômenos climáticos extremos — tendência observada pelo Copernicus nas últimas duas décadas. Com isso, corais e peixes podem sofrer declínios significativos em suas populações por estresse térmico e padrões migratórios e reprodutivos são alterados.
— A onda de calor do oceano representa uma ameaça imediata para algumas formas de vida marinha, já se veem sinais de branqueamento de corais na Flórida como consequência direta e espero mais consequências negativas — analisou à AFP Piers Forster, professor da Universidade de Leeds no Reino Unido e especialista em mudança climática.
A temperatura média da superfície do mar do planeta atingiu um recorde em abril e o oceano permaneceu excepcionalmente quente desde então. Em julho, as ondas de calor marinhas generalizadas levaram as temperaturas de volta a níveis quase recordes, com alguns pontos chegando perto dos 38ºC.
O Atlântico Norte, por exemplo, que geralmente alcança seu pico de temperatura em setembro, registrou uma média nunca antes vista de 24,9ºC, segundo dados da agência de observação oceânica e atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Alguns dias antes, o Mar Mediterrâneo bateu seu recorde diário de calor com uma temperatura média de 28,71ºC, segundo o principal centro de pesquisa marítima espanhol.
O El Niño, um padrão climático global recorrente que normalmente está ligado a condições mais quentes em muitas regiões do planeta, começou oficialmente em junho e é um dos fatores que contribui para o aumento das temperaturas globais da superfície do mar, disse Michelle L´Heureux, cientista climática do Centro de Previsão Climática da NOAA ao New York Times.
Mas a influência da mudança climática causada pelo homem é inegável, acrescentou ela.
O pico deste ano nas temperaturas globais da superfície do mar é preocupante, mas não é exatamente inesperado em um mundo em aquecimento, afirma Zeke Hausfather ao Times, cientista climático da Berkeley Earth, instituto de pesquisa sem fins lucrativos.
— O nível de calor que estamos observando hoje só é possível devido ao aquecimento dos últimos 150 anos decorrente da atividade humana — enfatizou Hausfather (Com AFP e New York Times).
Fonte: O Globo
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