
10/08/2023
Estudo com dados de 116 países aponta relação entre níveis crescentes de poluição e aumento da resistência de bactérias a antibióticos. Melhorar a qualidade do ar poderia evitar mortes e economizar bilhões de dólares. Os níveis crescentes de poluição do ar podem estar aumentando a resistência de bactérias a antibióticos. É o que sugere uma pesquisa publicada na revista científica The Lancet Planetary, que analisou dados de 116 países entre 2000 e 2018.
O estudo mostrou que a resistência a antibióticos é mais alta no norte da África, Oriente Médio e sul da Ásia, enquanto é mais baixa na Europa e na América do Norte.
Ao todo, a análise incluiu dados de mais de 11,5 milhões de amostras, abrangendo nove patógenos bacterianos (bactérias capazes de causar doenças) e 43 tipos de antibióticos.
Os pesquisadores examinaram dados sobre uso de antibióticos, saneamento, economia, gastos com saúde, população, educação, clima e poluição do ar. Entre as fontes estão a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Europeia do Ambiente (AEA) e o Banco Mundial.
O fato de haver tantas bactérias resistentes a antibióticos em todo o mundo se deve, principalmente, ao uso excessivo e inadequado de antibióticos na agricultura e à falta de novos antibióticos.
As bactérias podem se tornar resistentes a antibióticos quando desenvolvem mutações genéticas que lhes dão uma vantagem de sobrevivência em relação ao medicamento. Essas mutações fazem com que os antibióticos percam a eficácia, e algumas doenças infecciosas não conseguem mais ser tratadas com eficiência.
Como os mecanismos de resistência podem evoluir e se adaptar constantemente, o desenvolvimento de novos antibióticos é cientificamente desafiador – e caro, já que geralmente requer muitos anos de pesquisa e testes clínicos. Devido à baixa lucratividade e ao alto risco envolvido no desenvolvimento, há pouco incentivo para que as empresas farmacêuticas invistam nessa área.
Hospitais, áreas agrícolas e estações de tratamento de esgoto estão entre as rotas mais comuns de transmissão de bactérias resistentes a antibióticos. Elas são disseminadas principalmente pelo ar: partículas são liberadas por pessoas ou animais infectados e, então, inaladas por outros.
Em partículas finas, como poeira ou gotículas, bactérias resistentes podem se espalhar por longas distâncias – num mundo globalizado, por meio até de remessas de carga, por exemplo.
Acredita-se que materiais particulados – partículas muito finas de sólidos ou líquidos suspensos no ar – do tipo PM2,5 – com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, ou cerca de 30 vezes menor que a largura de um fio de cabelo – desempenhem um papel fundamental na disseminação de bactérias resistentes a antibióticos.
O material particulado é produzido, por exemplo, em indústrias, pela queima de carvão e madeira em residências e pelo atrito entre pneus e asfalto.
Essas partículas minúsculas podem adentrar profundamente nas vias respiratórias e causar doenças respiratórias potencialmente graves, problemas cardiovasculares e câncer de pulmão. Populações vulneráveis, como crianças e idosos, estão particularmente em risco.
Níveis elevados de PM2,5 provavelmente terão maior impacto sobre o número de mortes prematuras por resistência a antibióticos na China e na Índia, devido às suas grandes populações.
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