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Cientistas alertam para urgência de proteção e recuperação do Cerrado

15/08/2023

O acelerado ritmo de conversão da vegetação natural do Cerrado em áreas agropecuárias está causando impactos nos serviços ecossistêmicos do bioma. Para frear o problema, é necessário implantar ações de proteção mais rígidas, complementadas com um planejamento territorial focado na formação de corredores ecológicos e na recuperação de pastagens degradadas. Este é o alerta feito por pesquisadores brasileiros em carta publicada na revista científica Nature Sustainability.
Segundo maior bioma da América do Sul, com uma área de 2 milhões de quilômetros quadrados (km2), o equivalente ao território do México, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo, com mais de 11.600 espécies de plantas nativas. Conhecido também como “berço de águas” no Brasil, abriga diversas bacias hidrográficas que abastecem as regiões Sul e Sudeste.
Porém, vem registrando recordes de desmatamento – um aumento de 16,5% entre agosto de 2022 e julho de 2023, alcançando 6.300 km2 destruídos no período. Os dados são do sistema de alertas Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados no último dia 3 de agosto. Foi o pior resultado desde o início da medição, entre 2017 e 2018. A maior parte dos alertas está na área conhecida como Matopiba, que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Quase 75% do desmatamento do bioma está na região.
Em 2022, a derrubada da vegetação no Cerrado já havia sido 25% maior do que no ano anterior, chegando a 10.689 km2. É quase igual ao total desmatado no mesmo período na Amazônia (11.568 km2), que abrange um território duas vezes maior.
“É reflexo. Há menos ações para coibir o desmatamento no Cerrado do que na Amazônia, por exemplo, ao passo que atividades derivadas dessa conversão dão lucro. Contudo, suas funções ambiental, econômica e social interessam, igualmente, ao planeta. O próprio acordo Mercosul-União Europeia tem entraves relacionados à sustentabilidade na cadeia de produção agropecuária, mas ainda negligencia o Cerrado. É necessário e vantajoso priorizá-lo nas discussões diplomáticas”, diz à Agência FAPESP o primeiro autor da carta, Michel Eustáquio Dantas Chaves, pós-doutorando na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG-Inpe) apoiado pela FAPESP.
Segundo os pesquisadores, a perda da vegetação vem contribuindo para eventos climáticos extremos, aumentando a temperatura, reduzindo a capacidade de as plantas lançarem umidade no ar (evapotranspiração) e alterando o regime de chuvas, com consequente ameaça à viabilidade de sistemas de cultivo múltiplos e à produtividade.
“O ritmo recente de desmatamento está alto e já afeta condições edafoclimáticas [características do meio ambiente, como: clima, relevo, temperatura, umidade do ar, precipitação pluvial para a atividade agrícola e outras] vitais. Isso compromete até mesmo o futuro da produção nacional, podendo desencadear crises ambientais e socioeconômicas, bem como afetar políticas de segurança alimentar”, explica Chaves.
Na carta publicada em Nature Sustainability, com o título Reverse the Cerrado’s neglect (Revertendo o descaso com o Cerrado), os cientistas alertam que o bioma tem sido excluído de esforços que possam garantir a sustentabilidade.
Citam como exemplo a Moratória da Soja – um pacto feito entre organizações não governamentais, agroindústrias e governos com o compromisso de não comprar commodities de áreas desmatadas – só aplicada para a Amazônia, alguns projetos de lei (PL-2633/2020, PL-510/2021 e PL-337/2022) e a nova regra da Comissão Europeia sobre a importação de produtos sem desmatamento. Essas normas deixam parte do Cerrado desprotegido, como “zona de sacrifício” para desenvolvimento agrícola.

A matéria na íntegra pode ser lida no CicloVivo

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