
07/11/2023
Cercado de crateras vermelhas que remetem a Marte, o pecuarista Ubiratan Lemos Abade estica os braços, mostrando dois possíveis futuros para suas terras, ameaçadas pela desertificação.
Abade, de 65 anos, vive na maior zona de desertificação do Brasil: Gilbués, no estado do Piauí (a 765 km de Teresina), onde a paisagem árida e pontuada por cânions devora fazendas e já chegou a muitas propriedades, em uma área maior que a cidade de Nova York.
Segundo especialistas, o fenômeno é causado pela erosão galopante no solo frágil da região e exacerbado pelo desmatamento, pelo crescimento indiscriminado e, provavelmente, pelas mudanças climáticas.
Mas centenas de famílias que vivem da agropecuária se recusam a abandonar esta terra desolada e recorrem à criatividade para desafiar as adversidades e chamar atenção para o problema.
"Antes tinha mais chuva. Agora diminuiu, descontrolou. Por isso, a gente tem que trabalhar com irrigação. Se não for [assim], não tem como sobreviver", diz Abade.
Ele aponta, à sua direita, para um campo de capim seco, que morreu antes que seu gado pudesse pastar ali. À sua esquerda, mostra um lote exuberante de capim regado com um sistema improvisado de irrigação, do qual depende para manter vivos suas vacas e a si próprio.
Ele implantou o sistema há um ano: cavou um poço e instalou uma rede de mangueiras.
"Se não tivesse irrigação, ficaria tipo aquele. Aquele eu não irriguei e está morrendo de sede", afirma. "Tem que ter tecnologia [para produzir aqui]. Mas para quem é fraco de condições, fica difícil."
Do céu, o "deserto" de Gilbués parece uma gigantesca folha amassada de papel-lixa cor de tijolo.
O problema da erosão não é novo. O termo "Gilbués" provavelmente vem da palavra indígena "jeruboés", que significa "terra fraca", conta o historiador ambiental Dalton Macambira, da Universidade Federal do Piauí.
Mas a humanidade agravou o problema ao devastar e queimar a vegetação, cujas raízes ajudavam a conter o solo friável, e ao expandir as construções em uma cidade de atualmente 11 mil habitantes.
Gilbués foi cenário de uma corrida por diamantes em meados do século 20, de um "boom" de cana-de-açúcar na década de 1980 e, agora, é um dos principais municípios produtores de soja do estado.
"Onde tem gente, tem demanda por recursos naturais", diz Macambira. "Essa atividade econômica acaba acelerando o problema e exige do ambiente natural uma capacidade de suporte que ele não tem."
Segundo um estudo publicado em janeiro por Macambira, a área afetada pela desertificação mais que dobrou, de 387 km² para 805 km² de 1976 a 2019, afetando cerca de 500 famílias de agricultores.
Os cientistas afirmam que são necessários mais estudos para determinar se o aquecimento global acelera o fenômeno.
Os agricultores constataram temporadas mais secas e de chuvas mais curtas, porém mais intensas, o que agrava o problema: as fortes precipitações arrastam mais terra e aprofundam ainda mais os enormes cânions, conhecidos como voçorocas.
Segundo Macambira, o aquecimento global só pode piorar a situação. Em regiões com problema de degradação ambiental, "as mudanças climáticas tendem a ter um efeito mais perverso", afirma.
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