
14/11/2023
As mudanças climáticas estão alterando o quadro de incidência de doenças infecciosas no Brasil e no mundo.
Um planeta mais quente dá alertas de grandes proporções. Mas nem todos os sinais são percebidos à primeira vista. Hoje, 94% dos municípios gaúchos têm focos do mosquito da dengue. Uma doença que, até pouco tempo atrás, não tinha incidência tão alta no Sul do país. Mas a combinação de mais chuva com mais calor resultou em mais mosquitos.
Quem estuda doenças infecciosas como essa explica que esse é só um exemplo de como elas avançaram para regiões onde ainda não havia transmissão. Itália, França e Espanha registraram, em 2023, 74 casos autóctones de dengue, que é quando a pessoa se infecta na região onde mora. Nos Estados Unidos, já são 672. Hoje, a cada dez registros no país, quatro são de pessoas que não estiveram em áreas endêmicas de dengue.
Outro mosquito também impacta o norte do globo.
“Sempre houve malária nos Estados Unidos, mas pessoas que vinham da América Latina, vinham da África, tinha malária lá. Mas está acontecendo casos de malária nos Estados Unidos de pessoas que nunca saíram dos Estados Unidos. Então, está tendo uma transmissão por mosquitos que antes não acontecia”, diz o infectologista Celso Granato.
No Laboratório de Virologia da USP, os pesquisadores estudam, há três décadas, os vírus respiratórios que circulam entre nós, como o da gripe, por exemplo. E o que vem chamando a atenção deles é como tem se tornado cada vez mais evidente o quanto as mudanças climáticas têm mudado o comportamento desses vírus.
“Hoje, a gente tem mais de 18 vírus que circulam ao mesmo tempo causando doenças respiratórias agudas tanto em crianças quanto em adultos. Um exemplo bem didático é o vírus respiratório sincicial - é o RSV. Esse é um vírus que causa bronquiolite em crianças pequenas, abaixo de 1 ano de idade. Esse vírus, tradicionalmente, tem o que a gente chama de sazonalidade. Todo ano, ele começa no final de fevereiro, início de março às vezes, e aí vai até junho, julho. De uns anos para cá, esse vírus foi espaçando, até tendo casos o ano todo. E, agora, nós estamos no maior pico de incidência do RSV ”, explica Edison Luiz Durigon, chefe do Laboratório de Virologia da USP.
Quem pesquisa rios e reservatórios brasileiros há 20 anos diz que os microrganismos que causam doenças preferem águas mais quentes.
“A gente tem encontrado vibrião do cólera em algumas áreas que nós temos estudado. A medida que você aumenta a temperatura da água, você aumenta a condição propícia para esse microrganismo se desenvolver”, diz Marta Marcondes, coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental da USCS.
“Para reverter isso não é uma coisa simples. Isso depende de políticas públicas, políticas de governo, bom senso da população. O maior desafio que nós temos hoje é tentar amenizar as mudanças climáticas”, afirma Edison Luiz Durigon.
Fonte: g1 / JN
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