
21/11/2023
Como verdadeiros condomínios imersos na água, os recifes de corais têm papel fundamental como abrigo para espécies marinhas —neles são encontrados 65% dos peixes do mar. Garantir a preservação, a reprodução e a recuperação desses seres vivos ameaçados pelas mudanças climáticas se tornou um desafio para ambientalistas.
No litoral de Pernambuco, tanques em laboratórios e "fábricas" no fundo do mar viraram refúgios para criar corais que depois são transferidos para outros pontos da costa do Nordeste.
No Brasil, os corais ocupam cerca de 3.000 km ao longo da costa. Só do sul da Bahia até o Maranhão, estão em um espaço de aproximadamente 170 km2.
Uma das áreas de proteção ambiental marinha do país fica localizada em Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco, a 104 km do Recife. A cidade também abriga o Cepene (Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste), onde biólogos e oceanógrafos atuam no monitoramento da biodiversidade local.
Chamada de Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, ela é a maior unidade de conservação federal marinha costeira do Brasil, fundada em 1997. Sua área é de mais de 4.000 km2, ao longo de 120 km de praias e mangues.
"Antes, a situação era de uso, turismo e pesca descontrolados. Um ano antes da criação da área fechada, tivemos o primeiro branqueamento forte de corais na área", diz o oceanógrafo Mauro Maida, da Universidade Federal de Pernambuco. O branqueamento, que tem sido acelerado pelo aquecimento dos oceanos, é o processo mais temido pelos especialistas, pois a perda da cor indica um quadro de desequilíbrio que pode levar à morte dos corais.
Além das mudanças climáticas, os riscos para os corais vêm da poluição dos mares, do turismo desordenado, da pesca predatória, da especulação imobiliária e de espécies invasoras. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU), até 90% dos recifes de corais do mundo podem ser perdidos até 2050.
"Já propusemos [ao ICMBio, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade] um novo decreto para ampliar a área de proteção para abranger novas áreas de reprodução", conta Maida.
A Folha mergulhou nas águas da unidade de conservação. Para fazer isso, um barco realiza o transporte por cerca de 15 minutos, a uma distância de cerca de 1,5 km da faixa de areia.
O mergulho, feito com apoio de cilindros de oxigênio e mergulhadores profissionais, a cinco metros de profundidade, permite a visualização nítida dos recifes, com inúmeras espécies de peixes, algas e até o exótico ouriço-do-mar.
Os recifes de corais se conectam por meio de um esqueleto de carbonato de cálcio. O Brasil possui mais de 60 espécies de corais, algumas delas exclusivas do país. Parte desses ecossistemas é protegida por 21 unidades de conservação marinha, sendo uma delas a de Tamandaré.
No dia a dia, o espaço é aproveitado por pesquisadores, estudantes, operadores de turismo e turistas.
Uma das características dos recifes de corais é a filtração da água do mar, o que auxilia na melhoria da sua qualidade. Por esses e outros benefícios trazidos por eles, um estudo recente, publicado pela Folha, aponta que os recifes de corais geram até R$ 167 bilhões ao Brasil.
Esse peso na economia, calculado por pesquisadores, leva em conta, entre outros pontos, o papel que eles têm na proteção costeira e na promoção do turismo. O levantamento inédito foi feito pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
Na sede do Cepene, em Tamandaré, uma das salas abriga reservatórios de água com estruturas segmentadas para apoiar na reprodução dos corais sob controle de temperatura —com ar-condicionado ligado na casa dos 30°C. Grupos específicos ficam aglutinados separadamente para facilitar a reprodução.
As caixas d´água são abastecidas por águas de torneiras. Uma saída de água em cada unidade permite que a irrigação seja constante.
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