
28/05/2024
Zoë Schlanger era repórter e cobria a mudança climática –lidando com uma avalanche diária de ocorrências de enchentes, incêndios e outros desastres naturais– quando começou a se interessar por publicações sobre botânica para relaxar. Foi ali que descobriu algo surpreendente: os pesquisadores estavam discutindo se as plantas têm inteligência própria.
O milho, por exemplo. É uma das várias plantas que conseguem identificar as espécies de lagarta que as atacam por sua saliva e produzir nuvens de compostos químicos, atraindo assim o predador do inseto. Alertada pelos odores, a vespa parasítica chega para destruir a larva, protegendo o milho.
"Um dos grandes debates atuais é se as plantas têm ou não algum tipo de intencionalidade, e se esse é um elemento necessário para que a criatura seja considerada inteligente. Há quem diga, porém, que o importante não é nem identificar propósito nos vegetais; o que vale é observar o que fazem, ou seja, tomar decisões em tempo real e planejar o futuro", disse Schlanger, que hoje escreve para a revista TheAtlantic.
Depois disso, ela passou os anos seguintes explorando o comportamento das plantas para compor seu livro, "The Light Eaters: How the Unseen World of Plant Intelligence Offers a New Understanding of Life on Earth" (os comedores de luz: como o mundo invisível da inteligência vegetal oferece uma nova compreensão da vida na Terra), publicado nos Estados Unidos neste mês.
A entrevista foi editada e resumida por questões de espaço e clareza.
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Conte algo surpreendente que as plantas fazem.
O que realmente me fascina são as formas como manipulam os animais em benefício próprio. A Mimulus guttatus amarela, por exemplo, engana a abelha com o pólen para atraí-la. O inseto faz um "processo de triagem", vamos dizer assim, analisando as substâncias químicas voláteis eliminadas pelas flores, que indicam quanto pólen há ali. Pois bem, essa flor bolou um jeito de não precisar fazer esse trabalho de produção, que é custoso, além de demandar muita energia; ela simplesmente elimina as substâncias. A abelha vem e vê que não tem nada ali, mas a essa altura já aconteceu a polinização.
Tem também uma infinidade de truques sexuais que algumas orquídeas usam e que acho fantásticos. Algumas desenvolvem uma pétala bem diferente, comprida, com um pequeno bulbo na extremidade. A vespa macho chega e se agarra a ela porque elimina um feromônio quase idêntico ao da vespa fêmea.
Gosto dessa história das que atraem predadores.
Pois é. Já nos anos 1990, os pesquisadores perceberam que o milho e o tomate conseguem sentir a saliva da lagarta que devora suas folhas e produzem elementos químicos para atrair a vespa parasítica certa, que chega e deposita seus ovos na larva. Claro que eles eclodem, devorando a lagarta de dentro para fora, "colando" seus casulos na parte externa de seu corpo. É comum ver muita carcaça coberta pelos alvéolos.
A que os cientistas se referem quando falam sobre "inteligência" nas plantas?
Elas ficam o tempo todo fazendo cálculos, assimilando os aspectos do ambiente à sua volta e ajustando a vida de acordo com eles, em um processo parecidíssimo com o que consideramos inteligência –em uma forma de vida totalmente estranha. É mais ou menos assim que devemos encarar a coisa. Não estamos falando de inteligência segundo nossos parâmetros, mas é algo que se destaca de formas que são apropriadas para elas no âmbito evolutivo.
A entrevista na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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