
28/05/2024
Uma floresta não é feita só de árvores. Para recuperar um ecossistema equilibrado é preciso reintroduzir animais no ambiente. E isso é urgente. Florestas são o melhor instrumento para reduzir a temperatura do planeta, manter água nos rios e prevenir fenômenos extremos como secas ou enchentes.
O segundo episódio sobre Refaunação do Fantástico fez uma viagem ao Parque Nacional do Iberá, no norte da Argentina, onde fica o maior projeto de reintrodução de espécies nativas das Américas.
Os esteiros do Iberá já foram um delta interno do Rio Paraná, onde hoje é fronteira entre Argentina e Paraguai. Há milhares de anos, o lago secou e o Rio Paraná encontrou um leito. Esta a segunda maior planície alagada do planeta, atrás apenas do Pantanal.
O cenário perfeito para um espetáculo de biodiversidade, até pouco tempo atrás, era um palco sem atores.
"Aqui na Argentina, a destruição da fauna foi muito rápida, muito ampla e há muito tempo. Não é uma questão dos últimos 30 ou 50 anos. Algumas espécies desapareceram dos pântanos do Iberá há mais de 100 anos", diz o diretor da Fundação Rewilding Argentina, Sebastian Di Martino.
Sebastian é o coordenador do mais ambicioso projeto de refaunação das Américas: reconstituir um ambiente inteiro, trazendo de volta os animais que foram extintos localmente.
"A gente identifica as espécies extintas, especialmente predadores e grandes comedores de frutas, que atuam espalhando sementes, porque elas têm um papel importante no ecossistema. E aí a a gente cria projetos para trazer essas espécies de volta".
O primeiro passo foi reorganizar o ambiente. Uma grande área pública estava invadida por gado das fazendas vizinhas. Plantações comerciais de pinus e eucalipto drenavam partes das áreas alagadas.
Um casal de milionários americanos, dedicado à conservação ambiental, começou a comprar as fazendas, formou um cinturão de proteção, derrubou cercas, retirou o gado, e doou ao governo argentino, que criou o Parque Nacional do Iberá, de 750 mil hectares.
Esses projetos baseiam-se na compreensão de que a evolução das espécies foi em conjunto. Muito da vida selvagem se recuperou sozinha. Herbívoros, como a capivara e os servos do Pantanal, se multiplicaram.
Para manter o equilíbrio, a presença de um predador, como a onça-pintada, ainda era necessária para manter o equilíbrio. Com apenas 250 onças na natureza em toda a Argentina, a colaboração dos países vizinhos foi fundamental para repovoar o Iberá.
Os animais doados haviam sido resgatados de acidentes ou em circos e zoológicos. Em recintos cercados com telas de 4 metros de altura, as onças aprendem a ser selvagens: sentir o cheiro de carne de caça e descobrir que são capazes de subir em árvores. Na última etapa, elas foram soltas num cercado de 30 hectares, onde precisaram caçar sozinhas.
Para restabelecer a saúde do solo, era preciso um animal que destruísse cupinzeiros e formigueiros, para que novos aparecessem: o tamanduá bandeira.
"Sem tamanduás, os cupins e formigas acabam se concentrando. Mas com os tamanduás de volta, os cupins e formigas precisam se espalhar para não serem presas fáceis. E é positivo para o ecossistema ter bem distribuídos esses bichos que removem a terra", ressalta Sofía Salazar, da Fundação Rewilding Argentina.
Algumas espécies de aves também foram espalhadas no ambiente, incluindo as araras.
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