
04/06/2024
Pouco mais de dois meses após o Rio Acre, em Rio Branco (AC), alcançar a segunda maior cota histórica e atingir mais de 70 mil pessoas com uma enchente devastadora, o manancial chegou a 2,52 metros em maio, menor marca para o mês nos últimos cinco anos. A situação alerta para a possibilidade de um período de seca que, segundo especialistas, pode se antecipar e se tornar cada vez mais frequente em um menor espaço de tempo.
👉 Contexto: Desde o início deste mês, o principal afluente do estado está abaixo de 4 metros e preocupa autoridades pela possibilidade de uma seca severa em 2024. Na quinta-feira (30), a Defesa Civil Municipal marcou 2,52 metros, mais de 15 metros abaixo do que foi registrado em 6 de março deste ano, quando o manancial alcançou 17,89 metros e se configurou como a maior enchente desde 2015 em Rio Branco.
Para entender o processo de mudança climática que afeta o principal rio do Acre, é preciso compreender os seguintes fatores:
* Influência de sistemas climáticos, como o El Niño;
* baixo índice de chuvas na região;
* mudança no ciclo hidrológico, causado pela emissão de gases de efeito estufa.
Estes tópicos contribuem para o baixo índice de chuvas na região. A situação contrasta com a vivenciada no início do ano, quando o manancial transbordou, e o total de chuvas chegou a 438 milímetros.
Como projeções deste fenômeno de seca, é possível que haja alto risco de desabastecimento na capital e até mesmo possibilidade de o Rio Acre "morrer". Em setembro de 2023, foi decretada emergência em áreas que sofriam com a falta d´água, situação esta reconhecida pelo governo federal nos 22 municípios.
Nesta mesma época, cerca de 40% da produção da zona rural foi afetada e o estado recebeu ajuda de mais de R$ 8 milhões para amenizar os impactos da seca.
Em todo o mês de abril, o Rio Acre ficou abaixo dos sete metros na capital — o maior índice foi marcado no dia 14, quando atingiu 6,42 metros. Já em maio, o manancial começou medindo 4,89 metros e não ficou acima desta marca até então — a média histórica para o mês é de 5,63 metros. Além disto, houve chuvas significativas em apenas dois dias, em 4 e 5 de maio.
O coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Carlos Batista, afirmou em entrevista ao g1 que o nível do Rio Acre está abaixo do mesmo período em 2023, o que pode ser indicativo de seca intensa em 2024. Segundo ele, o estado se prepara com planos de contingência para amenizar os impactos de uma possível estiagem prolongada.
"Este ano, já solicitamos de todas as coordenadorias municipais os seus planos de contingência voltados para os incêndios florestais, voltados para essa seca mais prolongada se ocorrer, para que a gente entenda quais são as ações que os municípios estão fazendo e vão fazer durante esse período", explicou.
Esta projeção de seca é prevista também pelo professor Foster Brown, pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Ciências Ambientais. Ele apontou que a seca extrema que assolou o Acre em 2023 estava sob a influência do atual ciclo do El Niño.
Tradicionalmente, o fenômeno El Niño ocorre entre períodos de dois a sete anos, causa secas no Norte e Nordeste do país — e chuvas abaixo da média — principalmente nas regiões mais equatoriais; além de provocar chuvas excessivas no Sudeste e Sul do país, como as que estão ocorrendo no Rio Grande do Sul.
Brown também diz haver envolvimento do aumento de emissão de gases de efeito estufa, que causam o aumento da temperatura na Terra e aceleram o aquecimento global. Como consequências deste problema ambiental, têm-se os extremos climáticos de cheias e secas.
"Nós temos o El Niño que está terminando, mas também o aumento dos gases de efeito estufa, que já fazem a temperatura aumentar. A atmosfera fica com mais energia, seja para cair chuva, como no Rio Grande do Sul, seja para evaporar a água, que está acontecendo em nossa região. Então, estamos em uma situação preocupante, porque o rio é um indicador da água que nós temos na bacia inteira", disse.
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