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Brasil precisa alinhar discurso com prática na transição energética, diz especialista

06/06/2024

Nas COPs, conferências do clima da ONU (Organização das Nações Unidas), de Glasgow (2021) e Sharm el-Sheikh (2022), o Brasil passou por uma situação inusitada. Foi o único país a ter dois pavilhões —um oficial e outro, o chamado Brazil Hub, reunindo ambientalistas, empresários, acadêmicos e políticos que não queriam frequentar um espaço coordenado pelo governo Jair Bolsonaro (PL).
Depois da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, muitos dos que frequentavam o Brazil Hub pularam o balcão e foram para o governo. Mesmo assim, falta ambição em nossa agenda ambiental.
A avaliação é de Gustavo Pinheiro, um dos maiores especialistas brasileiros em finanças da transição climática. Ele frequentou o Brazil Hub como integrante do iCS (Instituto Clima e Sociedade), uma das principais instituições filantrópicas brasileiras no combate às mudanças climáticas –mas não pulou o balcão. Hoje integra a equipe da E3G (Third Generation Environmentalism), centro de estudos internacionais da área.
Pinheiro falou à Folha sobre o que falta ser feito para que o Brasil se torne um líder ambiental –e como, em sua opinião, isso pode ser benéfico para a economia do país.

⭐ Uma equipe de alto nível reunindo vários atores da sociedade civil se formou nas últimas COPs em oposição ao governo Bolsonaro. Muitos desses atores hoje estão no governo Lula, mas o país ainda patina na área ambiental. Por que isso acontece?

A minha avaliação é que o governo Lula é uma colcha de retalhos —ou, como vocês dizem em Portugal, uma geringonça. Nessa grande coalizão, há a sociedade civil preocupada com a questão climática, mas também setores e grupos de interesse relacionados a combustíveis fósseis, e também setores ou grupos com interesses escusos ou não republicanos.
Lula, como é tradicional dele, tenta evitar as escolhas difíceis. Não é só uma característica do Lula, mas de todo líder político, que tenta evitar as notícias desagradáveis.

⭐ A transição energética é uma notícia desagradável?

É uma notícia desagradável para os setores que vão ter que fazer o "phase out", a transição de combustíveis fósseis. De carvão, que no caso do Brasil é minoritário, e de petróleo —que tem sido, enfim, uma maldição tardia, porque o Brasil encontrou grandes reservas de óleo de qualidade muito tarde, quando a agenda de descarbonização já estava colocada.
Há também o gás, em relação ao qual há uma narrativa de "combustível de transição", que não se sustenta em função do limitado orçamento de carbono que o mundo ainda tem. Já estamos em 1,5°C, que é a meta indicada no Acordo de Paris e que o governo brasileiro abraçou como mote para a COP30 em Belém.
Então, o Brasil abraça essa meta na geopolítica da diplomacia climática, mas não alinha ainda as políticas domésticas.

⭐ Durante o segundo governo Lula, o Brasil achou petróleo no pré-sal. Lula saiu, voltou e o Brasil encontrou petróleo de novo. Até que ponto o governo se deixou levar pela empolgação e deixou de lado a agenda ambiental?

Eu acho que a questão é mais profunda e ela realmente reflete uma dicotomia de interesses que não são conciliáveis. Não é conciliável emitir gases de efeito estufa com exploração de combustíveis fósseis e limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Se tudo isso se confirmar, o Brasil, de acordo com os planos governamentais, se torna o quarto maior exportador de petróleo do mundo até 2030, e vira uma Arábia Saudita —o que é absolutamente incompatível com o compromisso internacional que o Brasil quer levar para a COP30.

⭐ Alguns integrantes do governo reproduzem o discurso comum a vários presidentes latino-americanos, segundo o qual países do Norte Global enriqueceram com petróleo e agora é nossa vez.

É um discurso antigo, que vem desde os primórdios das negociações climáticas, com o princípio das responsabilidades comuns mas diferenciadas —onde, em tese, países que têm mais responsabilidade histórica e mais capacidade de agir têm que agir mais. E ele se aproveita de um fato que é inquestionável, de que o mundo desenvolvido, os países do G7, não estão fazendo a sua parte.
Países em desenvolvimento, mercados emergentes, usam isso como um escudo para também não fazerem nada.

A entrevista completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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