
06/06/2024
As mudanças climáticas provocadas pelas emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas dobraram a probabilidade de ocorrência das chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul. O El Niño teve um papel igualmente importante, enquanto falhas de infraestrutura pioraram os danos provocados pelas inundações.
As conclusões são de um estudo do WWA (World Weather Attribution) feito por pesquisadores do Brasil, Reino Unido, Suécia, Holanda e Estados Unidos divulgado na segunda-feira (3).
A análise levou em consideração a precipitação em dois intervalos de tempo: de quatro dias, 29 de abril a 4 de maio, e de dez dias, de 26 de abril a 5 de maio. Ambos os eventos foram considerados extremamente raros no clima atual, ocorrendo aproximadamente uma vez a cada 100 anos.
Nos dois cenários, a crise climática aumentou em mais de duas vezes a probabilidade de ocorrência da chuva extrema no estado e a tornou de 6% a 9% mais intensa.
O El Niño teve um impacto equivalente, aumentando a probabilidade das chuvas em duas a três vezes e a intensidade de 4% a 8% para o evento de dez dias, e de duas a cinco vezes e 3% a 10% para o evento de quatro dias.
O levantamento se baseia em técnicas de atribuição climática, ciência que busca determinar a influência do aquecimento global em eventos climáticos extremos.
Devido a sua natureza imediata, os resultados dos estudos de atribuição rápida do WWA, feitos logo após a ocorrência de fenômenos como ondas de calor e tempestades, não são revisados por pares até a sua divulgação —mas a metodologia usada é, o que certifica a confiabilidade dos resultados.
"No Rio Grande do Sul, esse padrão de chuva volumosa e intensa é consistente com o El Niño, mas estudos já mostraram que com as mudanças climáticas esses eventos vão aumentar, se tornando maiores e mais persistentes", diz Regina Rodrigues, pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) que participou do estudo.
Cientistas apontam que o pico do El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico na região da linha do Equador, já passou e que nos próximos meses ele deve ser substituído pelo La Niña, com águas mais frias nesta mesma região.
Apesar disso, a pesquisadora explica que eventos extremos de chuva são esperados no sul do país na fase de arrefecimento do fenômeno.
"As maiores inundações no sul do Brasil [em anos de El Niño] ocorrem, na verdade, em maio, chegando até mesmo a julho", afirma. "Por exemplo, enchentes de 1983 no vale do rio Itajaí-Açu [em Santa Catarina], foram em julho, no final do grande El Niño de 1982 e 1983. Portanto, o fato de o El Niño estar enfraquecendo no oceano Pacífico não significa que não tenha impacto no Brasil".
"Isso é algo que deveria ser incorporado pelos formuladores de políticas públicas e ainda não foi", diz Rodrigues.
Ela aponta, ainda, que desde 2014 não houve nenhum ano "neutro", ou seja, sem a ocorrência de El Niño ou La Niña –e ambos causam eventos climáticos extremos no Brasil. No Sul, o La Niña causa seca, que vinha se estendendo por três anos antes da chegada do El Niño atual, que traz mais chuva para a região.
"Isso é muito típico das previsões dos impactos das mudanças climáticas, com múltiplos anos de La Niña e com o El Niño mais forte", diz.
Leia a reportagem na íntegra clicando na Folha de S. Paulo
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