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Amazônia vive recorde de incêndios em duas décadas; brigadistas se preparam para seca extrema

30/07/2024

A luta contra o fogo na amazônia parece não ter fim para quem atua, há anos, no combate direto, como é o caso dos voluntários da Brigada de Alter —em referência ao distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA).
Eles enfrentaram em 2023, junto a uma força-tarefa nacional, o aumento de incêndios florestais na região conhecida como Baixo Tapajós, no oeste do Pará. E agora se preparam para mais um ano difícil.
Durante a seca histórica do ano passado, as chamas se espalharam pela vegetação nativa mesmo em áreas não associadas ao desmatamento —historicamente, os problemas andam juntos, pois o fogo é usado para abrir pastagem depois da derrubada de árvores. Para complicar ainda mais o combate às queimadas, os rios da região tiveram níveis recordes de baixa, deixando inacessíveis vilarejos de indígenas e de ribeirinhos.
Neste ano, esse quadro tende a se repetir —até mesmo a piorar. Considerando a quantidade de focos de calor de 1º de janeiro até a última sexta (26), a amazônia vive seu pior cenário de fogo em duas décadas. O número (21.221) é o mais alto desde 2005, de acordo com o programa BDQueimadas, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Em comparação com o mesmo período em 2023, quando foram computados 12.114 focos de calor, houve um aumento de 75%. Apenas em dois dias da última semana, em 23 e 24 de julho, a amazônia teve 1.318 focos, destacou a ONG Greenpeace.
Com chuvas abaixo do esperado até o momento em 2024, a seca começou mais cedo. O fenômeno La Niña, aguardado para o segundo semestre, tende a trazer chuva para a região, mas cientistas ainda não conseguem dimensionar que intensidade ele terá desta vez.
Procurado pela reportagem, o MMA (Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima) diz, em nota, que os incêndios florestais no Brasil são intensificados pela mudança climática e pelo forte El Niño iniciado em 2023. O estado de Roraima, frisa a nota, foi o mais atingido nos primeiros meses de 2024.
O cenário climático enfrentado desde o ano passado, afirma a pasta, mudou o padrão dos incêndios, com 31,7% deles ocorrendo em vegetação primária e 15,5% em áreas desmatadas.
Como resposta ao problema, o ministério destaca a criação de sala de situação para coordenar a resposta federal aos incêndios e à estiagem no país.
O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes Mendes de Conservação da Biodiversidade) terão mais de 3.000 brigadistas para enfrentar a temporada de fogo em 2024, cita o governo federal, que afirma também ter destinado R$ 405 milhões aos Corpos de Bombeiros da Amazônia Legal.
Em junho, a Folha percorreu áreas queimadas na região no Pará —o estado do Brasil mais afetado por incêndios florestais em 2023.
A memória da seca do ano passado, a maior em 125 anos, segundo pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), ainda está viva entre os brigadistas. A propagação do fogo em copas de árvores de 30 metros de altura é uma das lembranças que guardam.
Nesta segunda (29), o grupo da região de Alter do Chão —onde as queimadas ainda não atingiram uma situação crítica em 2024— iniciará um curso de formação promovido junto ao ICMBio. Essa capacitação, realizada com recursos de ONGs, deve formar 27 novos brigadistas.
O voluntário Daniel Gutierrez Govino, um dos fundadores da brigada, diz sentir na pele os efeitos das mudanças climáticas e o aumento da demanda de combate a incêndios. Ele conta que só era possível identificar a origem do fogo em 2023 por meio de monitoramento de satélites, sendo a maioria vindo de fazendas.
"No ano passado, a fumaça era tão intensa que não dava para ver de onde vinha. Eu saía do quarto de manhã e o cheiro da fumaça era tanto... Foi uma temporada muito seca", recorda.
Para continuar no enfrentamento do fogo na amazônia, Govino já teve que superar uma acusação de incêndio criminoso, que o levou à prisão, em 2019, junto a outros três colegas da brigada. O grupo foi solto três dias depois, e o caso, sem provas, foi arquivado sem apontar nenhum responsável.

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