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Professora mantém sozinha museu de fósseis e artefatos indígenas em Itaituba (PA)

30/07/2024

De um lado, um forno indígena que pode datar mais de mil anos e demais objetos encontrados no sítio arqueológico indígena na região de Santarenzinho, próximo ao município de Rurópolis (a pouco mais de 1.100 km de Belém), no oeste do estado do Pará.
Do outro, colares, cocares e artefatos da etnia munduruku, que vivem na região do Tapajós mas, no passado, chegaram a ocupar grande parte do estado.
Os objetos, somados a itens da história e da cultura de Itaituba (a 1.250 km da capital), formam o acervo do Museu Municipal Aracy Paraguassu, localizado no centro da cidade.
A coleção rica em objetos arqueológicos e etnográficos só existe graças aos esforços de uma professora de 70 anos, que decidiu, por conta própria, criar do zero o museu.
Sem formação acadêmica específica para atuar na área de conservação, a pedagoga Regina Lucirene Macedo de Oliveira resolveu fundar em 2006 o espaço que ela própria cuida. O acervo depende de doações ou de novas descobertas que são feitas quando obras na região encontram os artefatos.
O município de Itaituba passou por vários ciclos econômicos desde a sua fundação, em 1856, mas hoje é um dos grandes polos de mineração no estado. No entanto, centenas e até milhares de anos antes, a região do Tapajós era habitada por indígenas que produziram um rico acervo arqueológico e etnográfico.
Aracy Paraguassú, que dá nome ao espaço, era tia de Oliveira, e foi pioneira da preservação cultural do município de Itaituba, tendo deixado para a sua família um grande acervo de livros, fotos e peças históricas. "Ela era muito inteligente, mas também não tinha formação. Eu decidi homenageá-la porque ela me deu muitas condições para ter o que eu tenho aqui hoje", diz.
Grande parte do acervo vem do sítio arqueológico Santarenzinho, em Rurópolis, que está ameaçado devido à construção de um porto, conforme recomendação do MPF (Ministério Público Federal) de 2022. "Já faz tempo que não vou lá, mas acredito que com a construção desse porto, que agora está dentro de uma área privada, nós perdemos esse sítio."
Alguns dos objetos arqueológicos são muito antigos, como um enorme forno indígena encontrado no centro de Itaituba, mas não é possível saber a idade ao certo. Isso porque faltam as ferramentas laboratoriais e alguém que estude o material para fazer análises aprofundadas.
"Nós não temos ainda estudos, só temos o acervo, porque fui eu quem criou o museu, mas ainda não tive oportunidade de me especializar", conta ela, que fez um curso à distância de museologia, disciplina voltada para o cuidado e a conservação de museus e objetos históricos.
Oliveira diz que pesquisadores do MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi), em Belém, visitaram algumas vezes o museu e sugeriram colaborações com cientistas da região, mas reclama do fato de alguns objetos terem sido emprestados ao instituto, que nunca devolveu.
Dentre eles, um fóssil de preguiça-gigante encontrado em uma caverna a cerca de cem quilômetros de Itaituba, também levado por pesquisadores do museu paraense. "Só restou essa arcada dentária, que é original. O resto eles [a equipe do Goeldi] levaram embora, e estou brigando para ter de volta, pelo menos para fazer uma exposição do material."
A reportagem procurou o MPEG para esclarecimentos. Como esclarecimentos iniciais, o MPEG afirmou que nas "coleções científicas do Museu Goeldi existem peças, inclusive centenárias, provenientes de Santarém e proximidades. Vamos verificar se entre elas existe acervo pelo Museu Aracy Paraguassu e qual a parceria firmada com a instituição". Não houve retorno mais detalhado após isso.
A importância de manter o acervo com peças originais é de levar o conhecimento para os cerca de 100 mil moradores da cidade do seu patrimônio étnico-cultural, quem sabe até reforçando a forte ascendência indígena na região, que vive ameaçada por conflitos entre garimpeiros e indígenas. "Isso é tudo original do Índio munduruku, e eles vêm batalhando para manter alguns dos locais tradicionais do seu povo. Eu vou às vezes à Praia do Índio [comunidade indígena] para ver se eles querem doar materiais para expor", diz.
Tudo que compra, inclusive as prateleiras para display das peças, é com recursos próprios, e ela diz enfrentar dificuldade para a preservação dos objetos, com algumas peças originais aparecendo quebradas. "Eu tenho muita tristeza porque alguns dos objetos têm aparecido quebrados, também tivemos um problema com uma visita de escola que algumas peças mundurukus sumiram. Mas não consigo nem saber quem foi", conta.
Procurada, a prefeitura de Itaituba não respondeu às tentativas de contato por email e telefone da reportagem desde o dia 2 de julho.
A reportagem também procurou o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Após a publicação da reportagem, o Iphan afirmou que tem conhecimento do museu em Itaituba, mas que a instituição não faz parte do Cadastro Nacional de Instituições de Guarda e Pesquisa. "Anos atrás, foi feito o pedido por um representante e que, após análise do órgão, foram solicitadas complementações que até hoje não foram entregues", disse o órgão.
Quanto ao material do acervo, o órgão diz que é preciso que todo material passe por uma curadoria e estudo para conhecer a sua procedência e a relação com a cultura indígena da região do Tapajós.
Em relação ao sítio de Santarenzinho, o Iphan afirma que ele se encontra no cadastro de sítios do instituto, mas que o órgão só "poderia dizer o grau de relevância científica ou cultural do bem quando estudado por instituições acadêmicas ou para atender as exigências legais de atividades licenciadas por órgãos ambientais".
Por fim, para receber apoio ao acondicionamento de objetos arqueológicos, o Iphan informa que quaisquer instituições de caráter científico, cultural, educacional, ou museal, sejam elas municipais, estaduais, federais e até privadas, podem se candidatar a receber artefatos arqueológicos, desde que atendam o disposto na Portaria Iphan n° 196 de 2016.

Fonte: Folha de S. Paulo

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