
30/07/2024
Com os pés descalços, Sebastiana dos Santos Moraes, 79, caminha em direção à sua casa, pelo chão de terra batida, às margens de um brejo. Apenas cerca de 100 m separam o rio Piracicaba da pequena residência construída com madeirites, lonas e telhas de zinco.
A aposentada não come proteína há mais de 20 dias. "O peixe era minha misturinha", conta, com um sorriso fraco no canto da boca e os olhos voltados para o chão.
Sebastiana e o marido, Antônio Moraes, 83, são figuras conhecidas na comunidade do bairro Tanquã, em Piracicaba (SP). O vilarejo rural fica a cerca de 60 km do centro da cidade, distante outros 157 km de São Paulo, e foi vítima do que é considerada a maior tragédia ambiental da história do rio Piracicaba.
Em 14 de julho, ao acordarem, as cerca de 200 pessoas que vivem no local se depararam com um tapete de peixes mortos que cobria um trecho de 6 km do curso d’água. Desde então, os moradores temem pelo futuro do lugar, que depende do rio.
As mortes decorreram de um extravasamento de melaço da Usina São José S.A. Açúcar e Álcool, situada às margens do ribeirão Tijuco Preto —afluente do rio Piracicaba— no município de Rio das Pedras.
No dia 7 de julho, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) identificou a contaminação que partiu de um dos tanques da empresa e desceu cerca de 80 km até o Tanquã, onde causou a morte de cem toneladas de peixes.
Doze dias depois, a Cetesb multou a São José em R$ 18 milhões. Em nota, a empresa nega a relação da tragédia ambiental com o extravasamento registrado em suas dependências e diz que vai recorrer da decisão.
A Folha esteve no Tanquã na última quinta-feira (25) e conversou com pescadores que se dizem desesperados ante a iminente falta de recursos para sustento de suas famílias.
"Eu sempre armei minha redinha ali para pegar meu peixinho, que era minha misturinha. Agora não estão deixando mais, né? Diz que vai ficar cinco anos assim, né?", questiona Sebastiana, sem saber de fato quando poderá voltar a pescar.
A idosa vive no Tanquã com o marido há 45 anos, em área cedida pela União em razão de possuir registro como pescadora. Antônio, também aposentado, pescou durante 40 anos no rio Piracicaba e conta nunca ter visto algo semelhante.
A corvina, a traíra e a tilápia que antes Sebastiana pescava e cozinhava à lenha já não se encontram por ali. "Peixe só acha um ou outro pelo rio, morto", diz.
O Tanquã é conhecido como o "mini pantanal paulista" pela semelhança com o bioma do Centro-Oeste brasileiro. Trata-se de área de 14 mil hectares (equivalente a 19,6 mil campos de futebol) que contempla 10 km de rio e corta seis cidades do interior —além de Piracicaba, Anhembi, São Pedro, Botucatu, Dois Córregos e Santa Maria da Serra.
Desde 2018, a região é uma APA (área de preservação ambiental), em razão da rica fauna. Além de pescadores, o local atrai turistas do Brasil e do mundo interessados na observação de pássaros.
Nilson Abrahão, 63, vendia, até o dia 14, peixes aos turistas que visitam o Tanquã. A atividade rendia cerca de R$ 1.500 por mês, valor que complementava a aposentadoria de um salário mínimo. Sem os peixes, ainda pensa no que fazer para não prejudicar o orçamento.
"Qualquer um de nós que vive aqui poderia estar em outro lugar, mas gostamos daqui, das pessoas e, o mais importante, do contato com a natureza. Sem o rio, é como se isso tivesse se perdido. Quase todas as famílias que vivem aqui dependem do peixe. O que farão agora?", questiona o aposentado, que durante 25 anos viveu apenas da pesca.
Ronaldo Aparecido Evangelista, 46, nasceu no Tanquã. Pescador desde a adolescência, aprendeu a atividade com o pai. "Meu pai criou dez filhos com a pesca, e eu não sei fazer outra coisa da vida."
Por mês, Evangelista obtinha de R$ 3.000 a R$ 4.000 com os cerca de 400 kg de peixes que pescava. Com o dinheiro, sustentava a mulher e o filho.
"No dia que eu vi o rio coberto de peixes mortos, a única coisa que fiz foi chorar, não tive outra reação", diz Alan Belluci, 46. A esposa dele, no terceiro mês de gravidez, complementava a renda da casa levando turistas de barco rio abaixo, atividade que também está suspensa.
Termine de ler esta reportagem clicando na Folha de S. Paulo
Calor extremo atinge 1 bilhão de pessoas a mais que nos anos 1970, aponta estudo
23/06/2026
Redes subterrâneas de fungos revelam dimensão invisível da vida
23/06/2026
Estoques mundiais de grãos podem amenizar impacto do El Niño; agronegócio se prepara
23/06/2026
Entenda o outro confronto entre Argentina e Áustria: quem protege (e quem libera) seus glaciares
23/06/2026
Luminária de cascas de ovo transforma resíduo em peça premiada
23/06/2026
Europa sofre com onda de calor, e França restringe consumo de álcool
23/06/2026
