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A praia selvagem brasileira que virou ´cemitério´ de lixo asiático

06/02/2025

Espremida pelo Parque das Dunas, em Natal, no Rio Grande do Norte, a praia do Segredo chama a atenção por sua beleza selvagem.
Mas, olhando mais de perto, revela-se outro segredo menos atraente: suas areias se transformaram em um "cemitério" de lixo asiático.
Em uma caminhada de poucos minutos pela praia em dezembro, a reportagem da BBC News Brasil encontrou dezenas de embalagens de produtos fabricados em países como China, Indonésia, Cingapura, Emirados Árabes Unidos, Malásia e Coreia do Sul.
Os itens mais comuns eram garrafas de bebidas não alcoólicas, produtos de limpeza e recipientes de óleo de motor.
Quase todas as embalagens eram de plástico, mas também havia algumas de lata, como um removedor de tinta.
A maioria dos itens foi produzida em anos recentes e tinha as embalagens quase intactas.
Ladeada por imensas dunas, a praia do Segredo fica em uma região central de Natal, mas é menos frequentada do que outras praias mais urbanizadas da capital potiguar, como a de Ponta Negra.
Em alguns trechos, ela lembra uma praia deserta. No entardecer de uma terça-feira, embalagens com cores vivas se destacavam na praia em meio à areia clara e à vegetação de restinga.
Não havia apenas itens asiáticos entre as embalagens —também foram achados produtos fabricados no Brasil, nos Estados Unidos e em países africanos.
Mas, entre as embalagens em melhor estado —e que permitiam a identificação de sua origem—, as de produtos asiáticos eram a maioria, com folga.

Em julho de 2024, um estudo feito pela empresa de celulose Verocel também detectou uma grande quantidade de lixo estrangeiro em praias do município de Belmonte, no sul da Bahia.
Na ocasião, foram retirados 140 kg de lixo plástico das areias em cinco semanas.
"A análise dos resíduos revelou uma predominância de garrafas plásticas provenientes da Ásia", aponta o estudo.
Mas como produtos fabricados em países do outro lado do mundo foram parar em praias brasileiras?
Para Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo) e especialista em poluição marinha, a hipótese mais provável é o descarte de lixo por navios.
Segundo o Banco Mundial, o transporte marítimo responde por cerca de 90% do comércio global, e a Ásia abriga 20 dos 30 portos mais movimentados do mundo.
O tráfego de navios entre o Brasil e a Ásia é intenso: o Brasil compra muitos produtos industrializados de países asiáticos e vende uma grande quantidade de matérias-primas.
"Esses navios transportam pessoas, e essas pessoas consomem produtos que muitas vezes são jogados no mar", diz Turra.
"E aí vem tudo o que estava na embarcação e que foi comprado no porto de origem, que pode ser em Singapura, Vietnã, China... onde for."
O lixo costuma ser descartado perto dos portos onde os navios vão atracar e chega às praias levado por correntes marítimas, diz o pesquisador.
Segundo Turra, o descarte de lixo por navios estrangeiros afeta grande parte do litoral brasileiro, mas é mais visível em praias remotas ou que não são limpas com frequência.
Municípios de regiões portuárias também são mais vulneráveis —é o caso de Natal, que abriga um dos principais portos do Nordeste.


Alexander Turra diz que o lixo gera uma série de impactos nas praias e na vida marinha.
"Um deles é no turismo: quem vai querer visitar uma praia cheia de lixo?"
A poluição também ameaça animais que fiquem presos nas embalagens ou as engulam.
"E com isso tem a possibilidade de morrerem asfixiados ou de terem uma falsa sensação de saciedade, definhando ao longo do tempo", diz o pesquisador.
"Sem contar os prejuízos para a navegação, porque esses produtos danificam motores, hélices e sistemas de refrigeração."
A degradação do lixo plástico em partículas minúsculas (microplástico) também cria riscos à saúde humana, uma vez que peixes que ingerem essas partículas podem ser consumidos por humanos.

Conclua a leitura desta matéria clicando na Folha de S. Paulo

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