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Escalpelamento: a tragédia que segue assolando comunidades ribeirinhas

02/09/2025

Por trás da adoção generalizada de barcos como transporte pelas comunidades ribeirinhas na Amazônia, está um acidente que marca toda uma vida. No Pará, centenas de pessoas foram vítimas nas últimas décadas do chamado escalpelamento.
No estado que receberá líderes mundiais para a Conferência da ONU sobre o Clima (COP30), a vida de muitas mulheres que tiveram seus cabelos e outras partes do corpo arrancadas após ficarem presas em um motor de barco conta com inúmeras limitações e grande descaso, muitas vezes, com as próprias vítimas sendo culpadas pelo acidente.
Por décadas, a ocorrência do escalpelamento foi esquecida, e o amparo a quem sofreu os acidentes dependeu da boa vontade de médicos que organizavam mutirões voluntários para realização de cirurgias. Desde 2010, 28 de agosto passou a ser o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento. Desde então, medidas para combater o problema, em especial a fiscalização para que motores dos barcos não operem descobertos, são apontadas como responsáveis por uma queda no número de casos.
Um estudo de janeiro de 2024 feito pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) contabilizou 483 ocorrências de escalpelamento no Pará entre os anos 1960 e 2022. O maior número de casos (22) foi registrado em 2009. Dentre as vítimas, 98% são mulheres, com uma predominância de 67% entre crianças e adolescentes de 2 a 18 anos de idade.
Em menor grau, Amapá e Amazonas são outros estados afetados pelo problema. Com dificuldade na notificação já que os registros não são obrigatórios, há ampla visão de que os números são subnotificados.
Raíza Oliveira, hoje com 23 anos, sofreu escalpelamento quando tinha apenas oito anos de idade. "A partir do momento que sofremos o acidente, muda a nossa vida", afirma à DW. Moradora ribeirinha do interior do Pará, ela tem de se deslocar para Belém para realizar os tratamentos na Santa Casa de Misericórdia. Cada trecho da viagem, feita às vezes duas vezes por mês, dura quase um dia.
Além das cirurgias iniciais de reconstrução plástica, as vítimas demandam amplo apoio psicológico e outros acompanhamentos, como das funções neurológicas e auditivas, muitas vezes comprometidas no acidente.
"A retomada da autoestima é muito difícil, são sequelas por toda a vida. Há uma tentativa de acolher as vítimas, mas é complicado haver uma reconstrução total. O impacto nestas pessoas é muito significativo, afetando inclusive questões emocionais", afirma Flávia Lemos, professora de Psicologia Social da Universidade Federal do Pará (UFPA).Uma queixa constante no meio é um tipo de visão que tende a culpar as vítimas pelos acidentes. Especialistas apontam que é constante a postura das populações locais que responsabiliza as jovens por supostamente não se cuidarem. Neste sentido, o julgamento reduz o impulso para que estas pessoas reivindiquem seus direitos e busquem novas reparações.
"Nós começamos mais tímidas, já que as pessoas falam que é nossa a responsabilidade pelo acidente", conta Oliveira. Engajada no tema, a jovem observa que a mobilização melhorou nos últimos anos, com muitas vítimas se articulando através de redes sociais para trocar informações e fortalecer a causa em prol de suas demandas.
"O conhecimento sobre os acidentes melhorou, vemos isso como uma conscientização. Há dez, 15 anos, tudo era mais difícil. Mesmo assim, ainda se culpa muito as vítimas, e há certo preconceito com as ribeirinhas", conta.
Na visão de Lemos, o fato de o escalpelamento normalmente ser causado por um cabelo grande e solto acaba contribuindo para uma maior culpabilização das vítimas, uma vez que há visão de que houve desleixo por parte das envolvidas.

Conclua a leitura desta reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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