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Povoado no pantanal lida com trauma das queimadas enquanto luta por água e saneamento

09/09/2025

Moradores do povoado do Salobra, em Miranda (MS), relatam ter vivido dias de terror durante as queimadas de 2024. À época, a comunidade ficou cercada pelas chamas, estradas foram bloqueadas, aulas suspensas —e toda a cidade passou meses envolta em fumaça.
O trauma causado pelo fogo, porém, não é o único problema enfrentado pelos ribeirinhos, que sofrem com a falta de estrutura de água e saneamento.
"Foram dias terríveis, que nunca mais na minha vida eu desejo aquilo para ninguém", conta Marinalva Oriozola Barbosa, 49. Presidente da associação de moradores do Salobra, ela lidera a mobilização da comunidade por acesso à água e acompanhou o esforço dos vizinhos para conter as chamas.
Sem equipamentos apropriados, Gilmar Pereira Oriozola, 44, tesoureiro da associação de moradores e primo de Marinalva, conta ter entrado no rio junto de alguns conhecidos para tentar combater os focos de fogo, até a chegada do Corpo de Bombeiros.
Gilmar conta ter escalado a ponte ferroviária desativada sobre o rio Miranda para observar a região e tentar mandar as coordenadas dos focos de incêndio para o Prevfogo, órgão do Ibama responsável pelo combate. "Olhava aqui [de cima] e era só fumaça. Não enxergava nada, nada mesmo."
Com a fumaça que tomou a região por dias, recorda, as noites eram mais difíceis e ele dormia pouco para cuidar dos pais idosos. "Tinha que ficar acordando direto, molhando uma toalha e colocando em cima do rosto do meu pai e da minha mãe e medindo a pressão."
Para todos, as lembranças do fogo, ainda recentes, são dolorosas. Marinalva chora ao lembrar da sensação de impotência diante dos pedidos de ajuda que recebia dos vizinhos.
Assim como outras comunidades tradicionais do pantanal, o Salobra se mobilizou para formar uma brigada voluntária. O grupo foi criado em dezembro do ano passado, com apoio da SOS Pantanal, instituição sem fins lucrativos que atua na região e que acompanhou a reportagem até o povoado.
Segundo Gilmar, o trauma evidenciou a urgência de criar estratégias de prevenção para proteger a população e também os recursos naturais. Em meio às dificuldades impostas pelas mudanças climáticas, como a seca severa e o fogo, o povoado busca melhores condições de acesso à água potável e à estrutura de saneamento.
"Nós vivemos rodeados de água. Tudo perto, ao mesmo tempo longe, né? Porque a nossa água não é potável para usufruir", diz Gilmar.
A água do rio que banha a comunidade é salobra, como o próprio nome do povoado e do curso d´água já diz —isto é, tem uma concentração de sais dissolvidos superior à da água doce, mas inferior à da água do mar.
Não há esgotamento sanitário na região. Cada casa possui fossas rudimentares, para receber os resíduos que seriam destinados ao esgoto. Quando construídas de forma incorreta, ou muito próximas aos poços de captação da água, as fossas podem favorecer a contaminação por microrganismos.
No Salobra, o poço semiartesiano que abastece uma caixa d’água de 100 mil litros, destinada a toda a comunidade, está próximo à fossa da escola local. Os moradores ficaram cientes da condição da água após começarem a participar do projeto Águas que Falam, da SOS Pantanal, que analisa a qualidade da água em comunidades do bioma —no ano passado, a instituição instalou um filtro na caixa d’água.
"Para nós, a nossa água era só calcária [com alta concentração de minerais dissolvidos], não tínhamos ideia que tinha contaminação cruzada por coliformes fecais", conta Gilmar.

Termine de ler a reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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