UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
Ribeirinhos são ignorados, e explosão de pedral de 35 km avança em rio farto de peixes no Pará

16/09/2025

O trecho de uma decisão da Justiça Federal, de fevereiro de 2025, circulou intensamente pelo WhatsApp de pescadores que vivem do que o rio Tocantins oferece, no leste do Pará.
A decisão negava, sem meias palavras, a existência desses pescadores artesanais, que aprenderam ao longo de uma vida inteira sobre como mapear farturas de peixes por detrás de rochas enormes, que emergem com a seca do rio e que compõem um pedral com mais de 35 km de extensão, ao longo do curso d´água.
"No trecho 2, chamado Pedral do Lourenço, não há indígenas, quilombolas ou ribeirinhos", cita a decisão, que analisou um pedido do MPF (Ministério Público Federal) no Pará para anulação da licença prévia concedida pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) como etapa inicial para a explosão de extenso canal no Pedral do Lourenço.
"A área da obra circunscreve-se a um pequeno trecho do rio Tocantins, sendo o impacto ambiental baixo e temporário, não sendo o caso de invalidar-se a licença prévia", prosseguiu a Justiça.
Entre os ribeirinhos que estão em comunidades ao longo do pedral, houve indignação com os termos da decisão judicial.
A negação da existência desses pescadores —lideranças afirmam que existem entre 20 e 25 comunidades em torno do Lourenção, como é mais conhecido o pedral, com cerca de 3.000 pessoas— se estende a outras esferas de poder.
Pelo menos até 2024, o EIA/Rima (estudo e relatório de impacto ambiental) do empreendimento, tocado pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), do governo federal, não mapeou com exatidão as comunidades ribeirinhas afetadas direta e indiretamente pelas explosões previstas. Um complemento do estudo foi apresentado em julho do ano passado, com um diagnóstico sobre comunidades da região.
O detalhamento da atividade pesqueira no Pedral do Lourenço, que era uma condição estabelecida na licença prévia, não foi feito, dizem os pescadores. Também não há clareza sobre indenizações e ressarcimentos.
"A gente existe e segue aqui", diz Ernandes Soares da Silva, 52, vice-presidente da Associação da Comunidade Ribeirinha Extrativista da Vila Tauiri.
A Vila Santa Terezinha do Tauiri, na margem do rio Tocantins, tem mais de um século de existência. São cerca de 130 famílias na comunidade, segundo a associação, e quase todos são pescadores artesanais. A cidade mais próxima é Itupiranga (PA), que fica a 50 km de Marabá (PA).
A partir da vila se inicia o Pedral do Lourenço —as rochas já estão bem afloradas no rio em meados de agosto, quando a reportagem da Folha esteve na região. O pedral prossegue por 35 km, até a ilha do Bogéa, e as explosões estão previstas para todo esse trecho. A vila seria um entreposto para um paiol com os explosivos.
"O tratamento dado é como se a gente não existisse. E a gente quer mostrar que têm pessoas vivendo aqui", afirma Erlan Moraes do Nascimento, 30, que lidera a associação de ribeirinhos de outras três comunidades, todas elas no curso do pedral: Praia Alta, Vila Belém e Volta Redonda. Nesses lugares, vivem cerca de 80 famílias.
O Dnit afirma, em nota, que as rochas a serem removidas representam 1% da área total do Pedral do Lourenço. "As ações estarão restritas a rochas submersas situadas no canal de navegação. A atividade pesqueira não será anulada. A maior parte do rio permanecerá livre e plenamente disponível para a pesca, inclusive durante a execução das obras."
A licença prévia para a explosão do pedral foi concedida em outubro de 2022, no governo de Jair Bolsonaro (PL). Em maio deste ano, no governo Lula (PT), o Ibama emitiu a licença de instalação, o que já permitiria o início das obras de derrocamento. Em junho, a Justiça determinou a interrupção de avanços da obra, até análise sobre pedido de suspensão da licença, feito pelo MPF.
A abertura de uma passagem pelo Pedral do Lourenço —com até três detonações por dia, por três anos, garantindo uma faixa de 100 m de largura no rio para a passagem de barcaças— integra um projeto bem mais amplo, que permitiria o funcionamento da hidrovia Tocantins-Araguaia.
Além da explosão do pedral, o projeto prevê a dragagem de 177 km ao longo do rio Tocantins. A abertura dessa área garantiria acessos de minério, soja e carvão mineral ao Porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA), perto de Belém.

Conclua esta leitura acessando a Folha de S. Paulo

Novidades

Onça-pintada monitorada há um ano é capturada em Corumbá (MS)

07/05/2026

Uma onça-pintada de 72 quilos que era monitorada havia um ano na área urbana de Corumbá, Mato Grosso...

VÍDEO: Elefante-marinho é flagrado às margens do Rio Piraquê-Açu em Aracruz

07/05/2026

Um elefante-marinho foi visto às margens do Rio Piraquê Açu, em Aracruz, no litoral Norte do Espírit...

Governo federal reconhece emergência em município do AC por derramamento de óleo em rio

07/05/2026

A cidade de Tarauacá, no interior do Acre, teve a situação de emergência reconhecida pelo governo fe...

Projeto do AP que transforma caroço de açaí em gás de cozinha recebe certificado de viabilidade

07/05/2026

Um projeto desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) está transforman...

Projeto propõe usar lixo eletrônico como fonte de minerais críticos

07/05/2026

O Brasil gera mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano. É uma quantida...