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Despoluição da Baía de Guanabara promete regenerar Praia da Bica, que deve voltar a ficar limpa no verão 2026/2027

11/11/2025

Após décadas em que o mar era apenas parte da paisagem na Ilha do Governador, a Praia da Bica deve voltar a ser liberada para o mergulho. O mesmo programa que recuperou a Praia do Flamengo, na Zona Sul, está sendo levado para este outro trecho da Baía de Guanabara. Obras para captar e tratar mais esgoto, aliadas à posição privilegiada da praia que fica diante de um canal que leva água do oceano, devem devolver esse espaço aos banhistas no verão que começa em 2026, após mais de quatro décadas de poluição. As praias da Guanabara e da Engenhoca também devem ser beneficiadas.
Moradora da Ilha há 61 anos, Cláudia Simões lembra que na infância era comum a família aproveitar o fim de semana na Bica. Foi lá, inclusive, que aprendeu a nadar. Queria que os filhos de 19 e 27 anos tivessem tido a mesma experiência. Sua esperança agora é aproveitar com o neto, de 2 anos.
— Moro a vida inteira na Ilha e sei como é bom ter uma praia limpa perto de casa. Aprendi a nadar na Bica. Não pude ensinar meus filhos, mas espero levar meu neto para o mar — disse a aposentada.
A nostalgia também toma Sheila Jesus, de 50 anos, nascida e criada na região. Hoje desfruta apenas do que restou da praia:
— A última vez que entrei no mar foi na infância. Hoje corro pela praia e admiro o cenário, mas sempre penso se um dia voltarei a ver crianças brincando no mar.
As praias da Ilha do Governador foram balneários da Zona Norte muito frequentados por moradores e visitantes até o início dos anos 1970. Um grande baque ocorreu em março de 1975, com o vazamento de 20 mil toneladas de óleo do petroleiro iraquiano Tarik Ibn Ziyad na região. Depois, o despejo de esgoto irregular e de lixo só agravaram a situação.
Em 1983, uma imagem do GLOBO registrou banhistas já nas águas tomadas pelo lixo. A situação piorou com o desastre de 18 de janeiro de 2000, considerado a maior tragédia da história da Baía de Guanabara. Na época, 1,3 milhão de litros de óleo vazou de um duto da Petrobras que ligava a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao Terminal Ilha D’Água afetando cerca de 40% da vida marinha. Nos últimos 25 anos, o mar foi ainda mais maltratado pelo lançamento de esgoto.
O avanço das obras reacende a esperança de moradores como a enfermeira Cátia do Amaral, no bairro há 20 anos:
— Os antigos contam que já foi possível nadar aqui. Seria incrível, mas ainda tenho dúvidas.
Segundo Sinval Andrade, diretor institucional da Águas do Rio — concessionária que assumiu o serviço antes feito pela Cedae —, obras de interceptação de esgoto, a reforma da Estação de Tratamento da Ilha (Etig) e a posição privilegiada da Bica devem trazer bons resultados no segundo semestre de 2026. Inaugurada em 1969, a estação está sendo modernizada desde 2023 para dobrar sua capacidade, podendo chegar a algo próximo de 440 litros tratados por segundo.
O projeto prevê melhorias em todas as etapas do processo do tratamento do esgoto, afirma a empresa, com a instalação de grades automatizadas, a reforma dos decantadores e a troca de aeradores e da centrífuga. O objetivo é captar e levar para a Etig o esgoto jogado irregularmente na baía.
— Dividimos nosso plano em duas frentes. Buscamos coletar todo o esgoto que estava sendo despejado indevidamente, por meio do sistema de coleta em tempo seco, e encaminhá-lo à estação de tratamento. Ao mesmo tempo em que veio a reforma total da Etig — explicou Sinval Andrade.
As ações da empresa começaram com a eliminação de ligações clandestinas: 249 foram desativadas, e mais de duas mil desobstruções realizadas. Ainda serão criados cinco novos pontos de coleta na Praia de São Bento, na Portuguesa, no Corredor Esportivo e no Jardim Guanabara. Assim, 4,9 milhões de litros de água contaminada deixarão de poluir a baía, o equivalente a duas piscinas olímpicas por dia. O investimento é de aproximadamente R$ 11,4 milhões.
— Nossa projeção é otimista: até o fim de 2026, as três praias devem ficar próprias para banho — afirmou Fábio Dias, diretor-executivo da concessionária.
Boletins do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) reforçam a tendência. Entre janeiro e setembro deste ano, a Praia da Bica foi considerada própria para banho em 40% das medições — quase o dobro de 2024. O órgão explica que a classificação de balneabilidade segue os critérios do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e que as coletas poderão ser intensificadas conforme a melhora da qualidade da água.
Além do lazer, a recuperação trará benefícios aos ecossistemas locais.
— A melhora da água devolve saúde à fauna marinha. Tartarugas, peixes e camarões voltam a prosperar — afirmou Ricardo Gomes, do Instituto Mar Urbano.
O oceanógrafo Luciano Neves, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), explica por que a Praia da Bica tem uma posição privilegiada, o que pode fazê-la ser a primeira da Ilha do Governador a apresentar resultados positivos de balneabilidade, depois de décadas.
— A Praia da Bica está voltada para o canal principal da Baía de Guanabara. Começando na boca da baía, entre o Rio de Janeiro e Niterói, e indo até Paquetá, esse canal é responsável por fazer circular a maior parte da água oceânica de boa qualidade — explicou o especialista.
Neves, porém, alerta que a recuperação precisa ser sustentada por ações contínuas de saneamento e pelo engajamento da população. Sérgio Ricardo Barros, fundador da ONG Movimento Baía Viva, faz coro e acrescenta que “não há despoluição isolada”.
— Não acredito em praia na Ilha do Governador despoluída isoladamente, sem que haja saneamento da bacia hidrográfica. É preciso tratar os rios Jequiá, Meriti, Sarapuí e Iguaçu, que deságuam na região da Ilha. A recuperação depende de um esforço coletivo — concluiu.
Em nota, a Águas do Rio informou que já iniciou o trabalho de saneamento básico na Baixada Fluminense, enquanto o governo do estado divulgou que executa o Programa de Saneamento Ambiental (Psam), com ações em municípios do entorno da Baía de Guanabara.

Fonte: O Globo

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