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Banco de dados das cerejeiras do Japão é um dos registros mais antigos sobre mudanças climáticas

05/05/2026

Por mais de 1.200 anos, nobres, monges e burocratas japoneses registraram cuidadosamente um dos dias mais aguardados do ano —quando as cerejeiras florescem na antiga capital, Kyoto.
Nos últimos anos, um cientista climático, Yasuyuki Aono, foi o guardião desse tesouro de datas, um dos registros climáticos mais notáveis e duradouros do mundo. As cerejeiras, ou sakura, são particularmente sensíveis às mudanças de temperatura e, à medida que o planeta aqueceu, passaram a florescer cada vez mais cedo.
No último verão (que acontece de junho a agosto no hemisfério norte), Aono, que atualizava meticulosamente o registro ano após ano, morreu após uma batalha contra o câncer. Isso levou apoiadores de seu trabalho a começar a procurar um sucessor à altura.
"Precisamos da ajuda de um botânico ou alguém local de Kyoto, Japão!", postou Tuna Acisu, cientista de dados do Our World in Data, no X (antigo Twitter) este mês. As qualificações essenciais, ela escreveu, eram expertise científica e ser "local de Arashiyama", um distrito nos arredores ocidentais de Kyoto famoso por suas cerejeiras.
Inicialmente, não tiveram muita sorte. Nenhum outro pesquisador da Universidade Metropolitana de Osaka, onde Aono trabalhava, assumiria a manutenção de seus registros, escreveu Hiroko Nishino, porta-voz da universidade, em um e-mail.
Mas agora o sucessor de Aono foi encontrado, disse Acisu. No último dia 17, um biofísico ambiental baseado em Tóquio, Genki Katata, disse que concordou em ser o novo guardião dos registros.
"Garantir que os dados de Kyoto continuem vivos é um trabalho muito importante", disse Katata, pesquisador sênior do Canon Institute for Global Studies, em entrevista de Tóquio. "Quero levar isso adiante pelo maior tempo que puder."
As flores de cerejeira são amadas em todo o mundo. Multidões se reúnem para vê-las em Washington, D.C., nos Estados Unidos, e Vancouver, no Canadá, ambas receptoras de árvores presenteadas pelo Japão, assim como em Wuhan, na China, e Jinhae, na Coreia do Sul. Mas talvez em nenhum lugar elas estejam tão profundamente enraizadas na história e na cultura quanto no Japão.
A contemplação das flores de cerejeira, ou hanami, faz parte da vida cotidiana e aristocrática no Japão há mais de um milênio, celebrada em haikus, retratada em pinturas e meticulosamente registrada em diários e crônicas da corte. Hoje, a temporada de hanami é um evento animado, marcado por piqueniques com bentô sob as árvores e festas regadas a bebida que se estendem noite adentro.
Os registros históricos que Aono compilou não eram originalmente destinados à ciência. Mas as datas, locais e outros detalhes contidos nos manuscritos provaram ser uma rica fonte de dados de uma era que precede a invenção dos termômetros.
Em 14 de abril de 1644, Tokitsune Hiramatsu, um nobre da corte e estudioso, registrou em seu diária a ocorrência de uma festa de contemplação de flores de cerejeira nos jardins do palácio Seiryoden, nos terrenos do Palácio Imperial de Kyoto, residência do imperador do Japão por séculos. "Apreciamos as flores de cerejeira e tomamos saquê oferecido pelo imperador", ele escreveu.
Ao longo dos séculos, vários cronistas registraram a progressão das flores —se estavam apenas começando a florescer, estavam no auge da floração ou começando a espalhar suas pétalas, adicionando um nível de especificidade que permitiu dados relativamente consistentes através das gerações.
Aono focou em uma variedade nativa robusta chamada Yamazakura, altamente sensível às temperaturas da primavera e por muito tempo a cerejeira padrão do Japão, antes de o híbrido mais delicado Somei-Yoshino ganhar popularidade.
Aono debruçou-se sobre esses registros, estudando sozinho a escrita japonesa antiga. O esforço levou mais de 15 anos. "Nunca fui bom em literatura na escola, e no início eu não tinha ideia nem de onde procurar", disse ele em um discurso de aceitação de um prêmio acadêmico que recebeu em 2017. "Colegas incrédulos perguntavam: ´Você ainda está estudando cerejeiras?´"
Lentamente, os fragmentos da vida cotidiana tornaram-se registros das mudanças climáticas. As cerejeiras precisam de um período de frio invernal para quebrar a dormência, seguido de dias mais quentes para desencadear a floração.
Seus dados mostraram que, por aproximadamente 1.000 anos, as datas de pico de floração tendiam a cair por volta de meados de abril, com flutuações em resposta a variações climáticas naturais. Mas a partir de cerca de 1820 a 1830, as cerejeiras começaram a florescer mais cedo, à medida que Kyoto se urbanizou e os humanos queimaram mais combustíveis fósseis, liberando gases de efeito estufa na atmosfera.
Essa tendência se acelerou acentuadamente nos últimos anos. Em 2021, o pico de floração em Kyoto aconteceu em 26 de março, sua chegada mais precoce em 1.200 anos. Isso representa uma mudança de quase três semanas em comparação com a média histórica.
Usando modelagem computacional, Aono estimou um aumento geral de temperatura de 3,4°C em média na área de Kyoto nos últimos 170 anos. Ele também examinou o efeito da urbanização nas temperaturas locais, porque edifícios e estradas retêm calor, o que eleva as temperaturas locais —as chamadas ilhas de calor.
Mesmo assim, sua pesquisa ainda indicava claramente os efeitos do aquecimento global. As mudanças climáticas estavam tornando eventos de floração extremamente precoce, como a de 2021, muito mais prováveis, segundo um estudo de 2022 do qual Aono é co-autor.

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